domingo, 19 de outubro de 2014

Fundamentos da dignidade humana e projeto de uma sociedade sem exclusão a partir da prática de Jesus Cristo

Texto: José Antônio Somensi e Fernanda Seibel
Fotos: Fernanda Seibel



Como fortalecer a dignidade humana e o respeito aos critérios éticos de prioridade a vida diante dos avanços da ciência? Como termos uma sociedade sem exclusão a partir de Jesus Cristo?



Com estas provocações, realizamos nos dias 18 e 19 de Outubro no Centro de Pastoral da Diocese de Caxias do Sul a oitava etapa da Escola de Formação Fé, Política e Trabalho 2014 – 11º ano.

No sábado, dia 18, o tema foi: Bioética. Fundamentos da dignidade humana. Os critérios éticos que fundamentam a reverência à vida, o cuidado e a responsabilidade pelo outro. A consciência crítica frente aos avanços da tecnociência, da biotecnologia, do biopoder, da nanotecnologia e da saúde pública, e contou com a assessoria do professor Dr. José Roque Junges – Unisinos.

O padre Dr. José Roque iniciou sua apresentação trazendo para nós o tripé da modernidade:

a) Indivíduo que busca a autonomia, mas enfraquecido dos laços comunitários, alimentados em buscado dos seus desejos individuais, com uma certa independência econômica, dominados por um poder não conhecido, portanto não livres, tratado como” uma coisa” e desta forma afastado de sua dignidade;
b) Ciência e Técnica (racionalidade instrumental) onde a natureza não pode nos ensinar através de seus ciclos, mas é visto apenas como meio ou recurso para o ser humano e onde o conhecimento é colocado em compartimentos e aprendemos disciplinas fechadas e não mais o todo. A natureza vista apenas como consumo/recurso;
c) Estado e Mercado que substituem o papel da comunidade e o sistema social da dádiva (Mauss) e com isso as relações primárias, próximas são substituídas pelo Estado e pelo mercado que determina o que produzir e consumir, além de apresentar e fortalecer uma democracia meramente representativa.

Diante disso concluímos que nesta crise civilizacional temos um indivíduo fechado em si mesmo vivendo numa sociedade de risco, com conhecimentos fragmentados, num estado burocratizado com uma democracia formal, representativa onde se cria um ambiente favorável para estabelecer o poder sobre a vida das pessoas, seja de forma individual ou coletiva.

Segundo o professor José Roque é necessário encarar esta crise através da busca das soluções ambientais e de saúde com uma nova postura que busca colocar a economia como responsável pela vida do planeta através do consumo consciente onde quem tem precisa frear o seu consumo para que os que não têm possam consumir e não mais arcar com as responsabilidades das consequências ambientais, pois se percebe que para manter as áreas nobres limpas transferem-se os lixões para a periferia responsabilizando-os pelo acumulo de lixo. Torna-se necessário inverter a lógica médica tratando as causas a partir de alimentação saudável e saneamento básico (água tratada, esgoto...) dando informação e criando condições para que as pessoas possam conhecer os problemas e enfrentá-los. Fortalecer, no Brasil, o SUS capaz de criar mecanismos que possam cuidar de forma plena as pessoas onde as nossas UBS atendam de forma eficaz deixando os hospitais para as situações complexas e que os governos entendam que a saúde não se mede pelos hospitais que se tem, mas como cuidamos da água, esgoto, lazer da população.



No domingo, dia 20, o tema foi Projeto de uma sociedade sem exclusão a partir da prática de Jesus Cristo, com assessoria do professor Dr. Pedro Kramer – FAPAS – Faculdade Palotina de Santa Maria, traz a questão vista a partir do Deuteronômio onde tínhamos uma sociedade igualitária, justa, tendo Deus a orientá-los, atualiza e sintetiza a partir de Jesus que anuncia o Reino de Deus para cegos, coxos, pobres, surdos, mortos, leprosos.

E aqueles que não ficarem escandalizados por causa Dele com sua prática e na igreja primitiva onde vimos nos Atos dos Apóstolos através da comunhão fraterna, perseverança dos ensinamentos, fração do pão, nas orações colocando tudo em comum, num só coração e numa só alma.



próxima etapa acontece nos dias 15 e 16 de Novembro com os seguintes temas: Sociedade sustentável: por um novo paradigma civilizacional capaz de contribuir à sustentabilidade do Planeta e da sociedade, com assessoria do professor professor Ms. Gilberto Antônio Faggion - Unisinos, e As questões de gênero e a inclusão das «minorias» no horizonte de um novo paradigma da civilização atual, com assessoria da professora Dra. Cleusa Maria Andreatta – Unisinos.







Profeta Isaías (Isaías 11, 1-19)

"Do tronco de Jessé sairá um ramo, um broto nascerá de suas raízes. Sobre ele pousará o espírito de Javé: espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor de Javé. A sua inspiração estará no temor de Javé. Ele não julgará pelas aparências, nem dará a sentença só por ouvir. Ele julgará os fracos com justiça, dará sentenças retas aos pobres da terra. Ele ferirá o violento com o cetro de sua boca, e matará o ímpio com o sopro de seus lábios. A justiça é a correia de sua cintura, é a fidelidade que lhe aperta os rins. O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo, pois a terra estará cheia do conhecimento de Javé, como as águas enchem o mar."

textos

O absoluto é Deus, e o coabsoluto são os pobres. Entrevista especial com Jon Sobrino

Sábado, 29 de setembro de 2012


"Fazer teologia é ajudar, a partir do pensar, para que Deus seja mais real na história e que os pobres – no caso, a fome – deixem de sê-lo", afirmar o teólogo jesuíta.

Já são 40 anos de Teologia da Libertação e permanece a dúvida em relação às razões pelas quais ela é tão criticada, perseguida, difamada pelos poderes do mundo, inclusive pela hierarquia da Igreja. Pois quem ajuda nessa compreensão é o renomado teólogo jesuíta salvadorenho, de origem espanhola, Jon Sobrino, que aceitou conceder a entrevista a seguir para a IHU On-Line, por e-mail, afirmando que para responder a essa pergunta não é necessário nenhum estudo sofisticado, nem de discernimento diante de Deus. Tal perseguição ocorre "ou por má vontade ou por ignorância", pelo fato de que aquela teologia "foi vista como uma ameaça". E explica: "certamente, ameaça ao capitalismo, e daí a reação de Rockefeller em 1969 e dos assessores de Reagan, em 1980. E ameaça à segurança nacional, e daí as reações dos generais na década de 1980. Também no interior da Igreja, por ignorância, por medo de perder o poder ou por obstinação de não querer reconhecer a verdade com que se respondiam às críticas".

Sobrino pensa que, no Concílio Vaticano II, "a Igreja sentiu o impulso de humanizar o mundo e de se humanizar juntamente com ele, sem se envergonhar diante do mundo moderno e de usar o moderno para tornar mais crível o Deus cristão". E o teólogo acredita que o que se chamou de Teologia da Libertação "pode aportar a ambas as coisas: racionalizar a fé em um mundo de injustiça e oferecer uma imagem mais limpa de Deus, não manchada com a imundície das divindades que dão morte aos pobres".

Jon Sobrino é professor da Universidade Centro-Americana UCA, de San Salvador. Doutor em Teologia pela Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt (Alemanha) e diretor da Revista Latinoamericana de Teologia e do informativo Cartas a las Iglesias.

Ele é autor de, entre muitos outros livros, Cristologia a partir da América Latina: esboço a partir do seguimento do Jesus histórico (Petrópolis: Vozes, 1983). Ele estará na Unisinos participando do Congresso Continental de Teologia, com a conferência inaugural do evento, intitulada "Um novo Congresso e um Congresso novo".

Confira a entrevista. 

IHU On-Line  Para o senhor, qual o significado de celebrar os 50 anos do início do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro de Gustavo Gutiérrez  – Teologia da Libertação? Que perspectivas podem se abrir a partir do Congresso Continental de Teologia?

Jon Sobrino – Naqueles anos, de 1966 a 1974, estive emFrankfurt estudando Teologia. Tive notícias do Concílio, mas parciais. Por Medellín e o livro de Gustavo Gutiérrez, só cheguei a me interessar em 1974, com a minha chegada a El Salvador. Com isso quero dizer que, diferentemente de muitos da minha geração, eu fui um ignorante do que estava acontecendo e obviamente não fui nenhum apaixonado. Depois, tudo mudou. Mais do que acontecimento, penso que foi a realidade salvadorenha dos pobres e os companheiros que se entregavam a eles que me levaram a valorizar os acontecimentos que haviam ocorrido e a ler os textos de bispos e de teólogos que os acompanhavam. Esse esclarecimento talvez ajude a compreender as respostas que vou dar a seguir. Perguntam-me qual é o significado de celebrar, e penso que, se levarmos a sério a pergunta, cada um terá uma resposta própria.

Dos acontecimentos mencionados, eu continuo celebrando que foram rupturas profundas e humanizadoras na história da Igreja. Fizeram-nos respirar. Pensando no Concílio, "o impossível se fez possível". Pensando em Medellín, Gustavo Gutiérrez e depois em Dom Romero, a Igreja decidiu se voltar ao pobre e a Jesus. E deu "ultimidade" à justiça e à esperança de que fosse possível "que o rico não triunfe sobre o pobre, nem o verdugo sobre a vítima". Nessa tarefa, assomava-se com clareza o Deus de Jesus. E se eu me centro mais em Medellín do que no Concílio é porque eu o conheço melhor.

Outro cristianismo é possível

Isso produziu alegria e esperança de que, como se diz hoje, não sei se com demasiada facilidade, outra Igreja, outra fé, outro cristianismo "é possível", e o era porque "era real". Hoje celebramos o despertar "do sonho de séculos de cruel desumanidade", como nos pedia Montesinos, a decisão de trabalhar pelos pobres e sua libertação, e a lançar a sorte com eles. Celebramos a difícil conversão e o novo que foi aparecendo: liturgias, catequese, música popular, poesias, nova teologia, a de Gustavo, um compromisso desconhecido e uma luta contra os ídolos. E, sobretudo, a entrega da vida de centenas e milhares de fiéis cristãos. De bispos e sacerdotes. Na vida e na morte se pareceram com Jesus. Os feitos são evidentes. Dom Pedro Casaldáliga escreveu "São Romero da América, pastor e mártir nosso", embora várias cúrias romanas não sabem o que fazer com esse mártires, tantos e tão numerosos são eles. As normativas às que devem ser fiéis não são pensadas para aceitar o evidente.

Hoje, no continente, mudaram algumas coisas, persistem a pobreza, as estruturas de injustiça e de opressão, e aumenta a crueldade das migrações.

Mudaram mais as coisas na Igreja. De Puebla em diante, deslizou-se por uma ladeira sem que Aparecida tenha impedido isso significativamente. Há coisas boas e inovadoramente boas, mas já não é o de antes. Havia honradez institucional, abundante, ao menos o suficiente, com o real, denúncia vigorosa e analisada contra o horror dos pobres, utopia pela qual trabalhar e lutar, cartas pastorais que lembravam Bartolomé de las Casas e a ciência de Vitória, homilias proféticas de sacerdotes, teologias audazes... Agora isso não fica claro. Fizeram presente um Deus mais latino-americano, pobre, esperançoso, libertador e crucificado. E devolveram ao continente e a suas igrejas um Jesus que esteve sequestrado durante séculos.

Olhar para trás

O que significa, então, celebrar anos depois o Concílio, o livro de Gustavo GutierrezMedellín, o martírio de Dom Romero? O que ocorreu foi muito bom e muito humanizador. Hoje, já não abunda. E por isso é preciso olhar para trás, embora as palavras não soem politicamente corretas. Certamente é preciso prosseguir com o novo no pensar teológico: a mulher, os indígenas, as religiões, a irmã terra, a utopia de outros mundos, igrejas, democracias "possíveis". Mas é preciso ter cuidado para não cair na ameaça de Jeremias: "Abandonaram a mim, fonte de água viva, e cavaram para si poços, poços rachados que não seguram a água" (2, 13). O que mencionamos antes são fontes de água viva até o dia de hoje. E mais o serão se voltarmos a elas ativa e criativamente. É certo, "o Espírito nos move para frente". Mas tal como estamos, menos se pode esquecer que "o Espírito nos remete a Jesus de Nazaré", eterna fonte de água viva. 

IHU On-Line - O que significa fazer e pensar a Teologia a partir da realidade da América Latina e do Caribe?

Jon Sobrino – A teologia não é o primeiro a ser pensado. O primeiro é a realidade e, no caso da Teologia, a realidade absoluta. Com sua agudeza habitual, Dom Pedro Casaldáliga, ao se referir ao absoluto, diz que "tudo é relativo, menos Deus e a fome". O absoluto é Deus, e o coabsoluto são os pobres. Fazer teologia é, então, ajudar, a partir do pensar, para que Deus seja mais real na história e que os pobres – a fome – deixem de sê-lo. Para que o pensar possa ajudar nessa tarefa, lembremos o que Ellacuría entendia por inteligir a realidade. Explicava-o em três passos:

primeiro é "assumir a realidade"; em palavras simples, captar como são e como estão as coisas. Em 2006, olhando o mundo universo, Casaldáliga escrevia: "Hoje, há mais riqueza na Terra, mas há mais injustiça. Dois milhões e meio de pessoas sobrevivem na Terra com menos de dois euros por dia, e 25 mil pessoas morrem diretamente de fome, segundo a FAO. A desertificação ameaça a vida de 1,2 milhões de pessoas em uma centena de países. Aos emigrantes é negada a fraternidade, o solo abaixo dos pés. Os Estados Unidos constroem um muro de 1,5 mil quilômetros contra a América Latina. E a Europa, ao sul da Espanha, levanta uma cerca contra a África. Tudo o que, além de iníquo, é programado". O presente não o desmente.

segundo passo é "encarregar-se da realidade". Sua finalidade não consiste simplesmente em fazer crescer conhecimentos por bons e necessários que sejam, mas em fazer crescer a realidade. E em uma direção determinada: a da salvação, da compaixão, da misericórdia e do amor. A teologia é intellectus amoris

terceiro passo é "carregar a realidade", e com uma realidade que é pesada. Sob ela vivem os anawim da Escritura, os encurvados. A carga que pode fazer até com que privem a vida de alguém. Teólogos e teólogas sofreram perseguição, e alguns acabaram mártires. Isso pode acontecer quando o fazer teologia está perpassado de atitude ética.

Costumamos acrescentar um quarto passo: "deixar-se carregar pela realidade". O trabalhar e o sofrer assim também podem ser graça para quem faz teologia. Então, o teólogo sabe que faz parte do povo pobre, não é externo a ele. Sabe que é levado por ele e recebe o agradecimento dos pobres. Fazer teologia é, então, "uma pesada carga leve", como dizia Rahner, que é o Evangelho.

IHU On-Line  Como o senhor analisa a atual conjuntura cultural, socioeconômica e político mundial, a partir do horizonte latino-americano? Nesse contexto, quais os desafios e tarefas que implicam à teologia?

Jon Sobrino – Creio que na atualidade há muitos rostos de Deus na América Latina. Uns emergiram no passado e ali ficaram. Seguem mantendo muita gente com vida e dignidade – embora com a limitação de não animar ao compromisso. Outros coexistem com superstição desumanizante. Hoje proliferam novas Igrejas e movimentos de todo o tipo, em sua maioria carismáticos e pentecostais, com seus novos rostos de Deus. Pessoalmente, compreendo e às vezes aprecio a bondade das pessoas que os veneram, pois, em parte, deve-se a longas épocas de desamparo eclesial. Mas nem sempre é fácil para mim colocá-los junto ao Jesus de Nazaré do Evangelho. Entre intelectuais e antigos revolucionários existem agnósticos e alguns ateus. São minorias, mas estão aumentando. Creio que, em poucos lugares, surgiu o rosto de um Deus crucificado, de que fala Moltmann, mas não creio que em países como El Salvador e Guatemala seja possível aceitar, a longo prazo, um Deus que não afeta o seu sofrimento, que o próprio Deus sofra em seus filhos e filhas crucificados. Em meio a esses rostos, creio que a novidade maior é a dupla formulação que Puebla fez em 1979. Positivamente, Deus é essencialmente um Deus libertador. Defende e ama os pobres – e nessa ordem – pelo mero fato de serem-no. Seja qual for sua situação pessoal e moral. Dialeticamente, Deus é essencialmente um Deus de vida contra divindades da morte. Puebla analisou isso cuidadosamente e apresentou os ídolos de acordo com uma hierarquia: o ídolo da riqueza, o poder, as armas... Dom Romero, junto comIgnacio Ellacurría, explicou-o admiravelmente para a situação salvadorenha.

IHU On-Line  Qual é o rosto de Deus que emerge da realidade latino-americana? E como a Igreja tem assumido esse rosto?

Jon Sobrino – É preciso perguntar isso a eles, e não tomarmos, nós, o seu lugar. Mas podemos dizer algo. EmMorazán, em meio às atrocidades da guerra dos campesinos, perguntavam ao sacerdote que os acompanhava: "Padre, se Deus é um Deus de vida, como acontece tudo isso conosco?". É a pergunta de  e de Epicuro . Para responder a essa pergunta não me ocorrem conteúdos nem razões, mas sim atitudes. A primeira é lhes falar "com proximidade". E não qualquer proximidade, mas a de Dom Romero: "Peço ao Senhor durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tanto crime, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento". A segunda é falar "com credibilidade". E, de novo, não qualquer credibilidade, mas a de Dom Romero: "Eu não quero segurança enquanto não a deem a meu povo". O bispo não respondia apelando a milagres celestiais, mas sim mostrando em sua própria carne o amor terrenal. O que sentiam em seu coração os campesinos que sofriam e perguntavam, pertence a seu mistério. Aqueles que o viam de fora acreditam que o bispo lhes falou do amor de Deus. E que as suas palavras foram uma boa notícia. Resta aos intelectuais dialogar com Epicuro Dostoiévski , acolher Paulo Moltmann. E não é tarefa ociosa. Mas, entre nós, o que mais ressoa é a proximidade e a credibilidade do Monsenhor.

IHU On-Line  Como falar de Deus a partir da realidade de sofrimento que vivem os excluídos, os que estão à margem da sociedade privilegiada?

Jon Sobrino – As teologias não crescem, perduram ou decaem como sistemas formais de pensamento, não contaminadas pelo real. A Teologia da Libertação formulou com rigor e vigor que no Êxodo Deus "libertou os escravos", que na sinagoga de Nazaré, Jesus "libertou os cativos". O que, como e quanto disso guiou o pensamento nesses 40 anos é uma coisa a se analisar. Já disse que antes isso ocorreu mais do que agora. Desde já, a Teologia da Libertação não está na moda. Mas não me parece correto responsabilizar disso o que começou com Gustavo GutiérrezJuan Luis SegundoLeonardo BoffIgnacio Ellacuría e com Dom Helder CamaraLeonidas Proaño,Angelelli Romero. Às pessoas mencionadas é preciso continuar agradecendo que ao longo desses 40 anos se mantiveram impulsos de teologia libertadora e se estenderam a novos âmbitos, como o do gênero, das religiões, da mãe terra... E aqueles de boa vontade que lamentam a queda da teologia da libertação, que voltem ao Deus do Êxodo e a Jesus de Nazaré. Indubitavelmente, houve limitações, erros, exageros. Pode ter havido reducionismos anti-intelectuais em favor da práxis, preguiça intelectual diante de escritos como os de Juan Luis Segundo ou Ellacuría, vislumbres de demagogia diante do pensamento científico de outros lares, ignorância das críticas ou prepotência diante delas. Mas, pessoalmente, não vejo que tenha surgido outro impulso teológico tão humano, frutífero, evangélico e latino-americano como o que surgiu há 40 anos.

IHU On-Line  Como o senhor analisa esses quarenta anos da Teologia da Libertação? Por que ela foi tão criticada, perseguida, difamada pelos poderes do mundo, inclusive pela hierarquia da Igreja?

Jon Sobrino  Outra coisa é a menor qualidade na produção da teologia da libertação. Não é fácil que se repita a geração dos fundadores, embora tenham surgido novos teólogos e teólogas de qualidade. E não se pode esquecer que algo parecido pode ocorrer hoje em outras escolas, tradições e movimentos de teologia. Os BarthRahnerde Lubacvon BalthasarBultmannKäsemann não têm muitos sucessores dessa altura.

A resposta à segunda pergunta não precisa de nenhum estudo sofisticado, nem de discernimento diante de Deus. Ou por má vontade ou por ignorância, aquela teologia foi vista como uma ameaça. Certamente, ameaça ao capitalismo, e daí a reação de Rockefeller em 1969 e dos assessores de Reagan, em 1980. E ameaça à segurança nacional, e daí as reações dos generais na década de 1980. Também no interior da Igreja, por ignorância, por medo de perder o poder ou por obstinação de não querer reconhecer a verdade com que se respondiam às críticas. Lembre-se de Dom López Trujillo e de vários bispos e cardeais. E a instrução da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1984, sem que a de 1986 conseguisse consertar totalmente o anterior.

IHU On-Line 
 Qual o significado teológico e antropológico da expressão "libertação", a partir do contexto latino-americano? Como essa perspectiva teológica se implica no atual contexto de sociedade e de Igreja?

Jon Sobrino – Se me lembro bem, o conceito de "libertação" foi usado para superar o conceito de "desenvolvimento", a solução que o mundo ocidental propunha para superar a pobreza. Na Igreja, redescobriu-se que era um termo-chave no Êxodo e em Lucas para expressar salvação. Parece-me importante ter presente que "a libertação" foi redescoberta na América Latina, o chamado terceiro mundo, por ser um continente não só atrasado ou subdesenvolvido, mas também oprimido e escravizado pelo primeiro mundo, europeus e norte-americanos. E em Igrejas, se não oprimidas pelas europeias, fortemente dependentes delas. O termo "libertação" remetia de forma muito importante à opressão e à repressão, isto é, à privação injusta e cruel da vida, o que se mantém até os dias de hoje. Outra coisa é que, felizmente, o conceito foi estendendo seu significado na teologia para designar libertação da indignidade, da opressão de gênero, do despotismo de uma religião... E é preciso ter presente também que a teologia da libertação, diferentemente de outras teologias e ideologias, dá prioridade ao "povo" sobre o "individualismo", e à "abertura à transcendência" sobre o "positivismo", como disse Ellacuría em uma reunião de religiões abraâmicas. Em todo caso, embora com o retorno massivo a individualismos espiritualistas, a teologia da libertação introduziu a dimensão religiosa do humano no âmbito do mundo exterior. Ela a tornou presente na realidade social, por direito próprio e sem que possa ser facilmente ignorada. É religião política, afim à de Metz, o que não é um pequeno benefício.

IHU On-Line  Fazendo memória de Dom Oscar Romero, Ignácio Ellacuría e Companheiros, dentre tantos outros rostos que foram assassinados porque assumiram a causa dos empobrecidos e marginalizados, o que significa ser Igreja, hoje, no limiar do século XXI?

Jon Sobrino – Menciono duas sentenças. Ignacio Ellacuría, no funeral celebrado na UCA, disse: "Com Dom Romero, Deus passou por El Salvador". Ser Igreja é trabalhar com decisão e simplicidade, para que Deus passe por esse mundo desumano. E para o não crente trabalhar para que a solidariedade e a dignidade, o melhor do humano, passe por este mundo, que embora seja mais secular, continua sendo desumano. Dom Romero, na Universidade de Louvain, no dia 2 de fevereiro de 1980, poucos dias antes de ser assassinado, disse: "A glória de Deus é que o pobre viva".

Ser Igreja é trabalhar pela glória de Deus. E para o não crente "a glória da humanidade é que os pobres vivam, cheguem a formar parte da família humana". Por isso, é preciso trabalhar. E termino com algo que me faz pensar. Penso que no Concílio a Igreja sentiu o impulso de humanizar o mundo e de se humanizar juntamente com ele, sem se envergonhar diante do mundo moderno e de usar o moderno para tornar mais crível o Deus cristão. A finalidade é magnífica. Em Medellín, a Igreja sentiu o impulso de não se envergonhar dos pobres e de não escutar a repreensão da Escritura: "Por causa de vocês, blasfema-se o nome de Deus entre as nações". E com humildade se pôs a "limpar o rosto de Deus". Acredito que o que se chamou de Teologia da Libertação pode aportar a ambas as coisas: racionalizar a fé em um mundo de injustiça e oferecer uma imagem mais limpa de Deus, não manchada com a imundície das divindades que dão morte aos pobres.


http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/514096-o-absoluto-e-deus-e-o-coabsoluto-sao-os-pobres-entrevista-especial-com-jon-sobrino


LEIS SOCIAIS DO CÓDIGO DEUTERONÔMICO: ESCRAVO, LEVITA, ESTRANGEIRO, ÓRFÃO E À VIÚVA


O Código Deuteronômico, presente nos capítulos Dt 5.12-28, é, de acordo com Lohfink, um conjunto de leis orgânico, lógico e completo. Ele se compõe dos dez mandamentos da Lei de Deus, em Dt 5,6-21, e das suas leis complementares, em Dt 12-28. Ele orienta a vida e a missão do povo de Israel na história. O decálogo contém princípios normativos e orientadores. Ele, portanto, necessita de leis complementares que concretizem, atualizem e detalhem os seus respectivos princípios para um período determinado da história que é o século VII a. C.
Lohfink afirma que, a legislação deuteronômica é o caminho para uma sociedade sem empobrecidos e excluídos, alternativa e solidária, projetando assim a possibilidade de um mundo novo e diferente.

Quatorze leis de assistência e promoção social do Código Deuteronômico

1 Repouso semanal: Dt 5,14

O sétimo dia, porém, é o sábado de Iahweh teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem qualquer dos teus animais, nem o estrangeiro que está em tuas portas. Deste modo teu escravo e tua escrava poderão repousar com tu.
Após seis dias de trabalho, a família, os animais, o escravo e a escrava terão um dia de repouso. É importante ressaltar que até o estrangeiro é beneficiado, ele que emigrou de sua pátria e imigrou no país de Israel, passando a morar entre os israelitas e fazer parte daquela sociedade. Ele, como estrangeiro, no entanto, não tem todos os direitos e deveres como um israelita. Por isso, ele é economicamente fraco e legalmente dependente. Os escravos e as escravas, por sua vez, tinham normalmente garantidos os direitos à comida, à bebida e às vestes. Eles, portanto, não eram considerados pobres. O que lhes falta é a liberdade e a honra. Uma vez por semana e a cada semana, no sábado, os habitantes do país de Israel fazem uma experiência igualitária. Esta até beneficia os animais.

2 Beneficiados pelos sacrifícios: Dt 12,7

E comereis lá, diante de Iahweh vosso Deus, alegrando-vos com todo o empreendimento da tua mão, vós e vossas famílias, com o que Iahweh teu Deus te houver abençoado.
Devemos ter presente que o lugar da liturgia ao Deus Iavé é única e exclusivamente o templo de Jerusalém. A segunda lei de assistência e promoção social da legislação deuteronômica, visa beneficiar, proteger e defender o casal agricultor que tem patrimônio e vive em matrimônio com filhos e filhas. Os sacrifícios deviam ser consumidos no templo de Jerusalém pelo casal e seus filhos para aprofundar a sua fé no Deus Iavé e renovar o seguimento a ele como o Deus libertador e doador da terra prometida.

3 Beneficiados pelos sacrifícios: Dt 12,12

Alegrar-vos-eis diante de Iahweh vosso Deus, vós, vossos filhos e vossas filhas, vossos servos e vossas servas, e o levita que mora em vossas cidades, pois ele não tem parte nem herança convosco.
Esta lei diz respeito ao quando os sacrifícios deveriam ser oferecidos a Iavé. As expressões “lugar de repouso” e “herança” são referências à vida dos israelitas na terra de Canaã. Ocupando, uma vez, a terra prometida é possível que o casal agricultor tenha necessidade de ter escravos e escravas. Estes, no entanto, mesmo lhes faltando a liberdade e a honra, devem acompanhar o casal agricultor com seus filhos e suas filhas para o templo de Jerusalém. Aí eles comem, bebem e festejam como a família de agricultores.

4 Beneficiados pelo dízimo anual e primogênitos: Dt 12,18

Tu os comerás diante de Iahweh teu Deus, somente no lugar que Iahweh teu Deus houver escolhido, tu, teu filho, tua filha, teu servo e tua serva, e o levita que habita contigo. E te alegrarás diante de Iahweh teu Deus de todo o empreendimento da tua mão.
O legislador deuteronômico determina primeiramente que o dízimo do trigo, vinho e óleo, juntamente com os primogênitos bovinos e ovinos e, além disso, os sacrifícios votivos e espontâneos bem como os dons da tua mão devem ser unicamente consumidos no templo de Jerusalém. Desta fartura de alimentos são beneficiados o escravo, a escrava e o levita. É interessante que esta partilha deve ser feita na mais completa alegria.

5 Beneficiados pelo dízimo anual: Dt 14,26-27

Lá trocarás o dinheiro por tudo o que desejares: vacas, ovelhas, vinho, bebida embriagante (cerveja), tudo enfim que te apetecer. Comerás lá, diante de Iahweh teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua família. Quanto ao levita que mora nas tuas cidades, não o abandonarás, pois ele não tem parte e nem herança contigo.
Nesta lei, o legislador deuteronômico determina que o dízimo da semeadura e os primogênitos bovinos e ovinos devem ser oferecidos e consumidos no templo de Jerusalém, “todos os anos”. Desta vez, não são mencionados os sacrifícios votivos e os espontâneos bem como os dons da tua mão. Estes sacrifícios não eram oferecidos todos os anos. Por isso, esta lei beneficia o casal agricultor, sua família e o levita. Os escravos e as escravas não participam desta vez.

6 Beneficiados pelo dízimo trienal: Dt 14,29

Virá então o levita, pois ele não tem parte nem herança contigo, o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem nas tuas cidades, e eles comerão e se saciarão. Deste modo Iahweh teu Deus te abençoará em todo o teu trabalho que tua mão realizar.
A cada três anos, o dizimo trienal deve ser diretamente entregue ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva. O casal agricultor tomará o dízimo trienal da colheita e o colocará no portão da cidade, que é o lugar mais público dela. Aí também acontecem os julgamentos. Neste lugar de controle fácil, os grupos mencionados recebem o seu dízimo.

7 Beneficiados pela oferenda dos primogênitos: Dt 15,20

Tu o comerás cada ano diante de Iahweh teu Deus, tu e a tua casa, no lugar que Iahweh houver escolhido.
Todo o primogênito macho bovino e ovino é consagrado a Iavé. Em vista disso, esta lei proíbe que o casal agricultor tire proveito econômico desses primogênitos, tanto no trabalho como na tosquia. Tudo o que é consagrado e oferecido a Iavé, ele não o retém para si mesmo, como no holocausto, mas o devolve e o destina para beneficiar o ser humano, especialmente os grupos sociais vulneráveis tanto econômica como legalmente.

8 Beneficiados pela festa de Pentecostes: Dt 16,11

E te alegrarás diante de Iahweh teu Deus, - tu, teu filho e tua filha, teu servo e tua serva, o levita que vive em tua cidade, e o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem no meio de ti, - no lugar que Iahweh teu Deus houver escolhido para aí fazer habitar o seu nome.
Esta festa é móvel, isto é, ela não é comemorada num dia fixo. Ela é celebrada no quinquagésimo (= pentecostes em grego) dia, após o início da colheita dos cereais numa região. Como estes amadurecem, na terra de Israel, em épocas diferentes, então há, por um bom tempo, casais de agricultores da Galiléia ou da Samaria, trazendo em rodízio, para o templo de Jerusalém a oferta espontânea de cereais, proporcional à abundância da colheita do respectivo ano. Ela é também chamada a festa das semanas, isto é, as sete semanas, após o início da colheita. Os participantes beneficiados por estas refeições comunitárias diante de Iavé, no templo de Jerusalém, irão consumir os vários tipos de cereais, num clima de muita festa e alegria. Eles pertencem a grupos bem variados da sociedade israelita: o casal agricultor, seus filhos, seus servos, o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Todos os habitantes de Israel, como a família de Iavé, festejam juntos.

9 Beneficiados pela festa das Tendas: Dt 16,14

Celebrarás a festa das Tendas durante sete dias, após ter colhido o produto da tua eira e do teu lagar. E ficarás alegre com a tua festa tu, teu filho e tua filha, teu servo e tua serva, o levita e o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem nas tuas cidades.
A festa religiosa das Tendas era celebrada durante sete dias no santuário central de Jerusalém em honra de Iavé. Ela era festejada no outono do hemisfério norte, nos meses de outubro ou novembro, no final da colheita mais importante do ano. Colhiam-se grãos e a uva. Os grãos e a uva, transformada em vinho, eram partilhados como comida e bebida durante sete dias, num clima de muita alegria. Se os primogênitos eram também oferecidos nesta ocasião, então havia também muito consumo de carne. Os beneficiados pela festa das Tendas são os mesmos pela festa de Pentecostes, isto é, todos os israelitas como a grande família de Iavé.

10 Beneficiados pelo feixe esquecido durante a colheita: Dt 24,19

O feixe que é esquecido na roça torna-se, para ele, um meio para assistir e promover o estrangeiro, o órfão e a viúva. Porque a terra e sua produção são, em primeiro lugar, propriedade social e não propriedade particular. O legislador deuteronômico pensa tudo a partir do povo de Israel.

11 Beneficiados pela respiga: Dt 24,20

Quando sacudires os frutos da tua oliveira, não repasses os ramos: o resto será do estrangeiro, do órfão e da viúva.
A primeira respiga refere-se à colheita dos frutos da oliveira. É óbvio que apenas as olivas maduras são recolhidas. As verdes, quando amadurecem, pertencem por lei ao estrangeiro, ao órfão e à viúva.

12 Beneficiados pela respiga: Dt 24,21

Quando vindimares a tua vinha, não voltes a rebuscá-la: o resto será do estrangeiro, do órfão e da viúva.
A segunda lei da respiga refere-se aos cachos de uva verdes. Quando estes amadurecem, pertencem ao estrangeiro, ao órfão e à viúva. Assim esses grupos sem-terra podem também participar da fertilidade e da fecundidade da terra doada por Deus, tendo parte ativa das bênçãos divinas. Através das leis do feixe esquecido e da respiga da oliva e da uva, evitam-se os pedintes de esmola nas ruas e nos lugares públicos.

13 Beneficiados pelas primícias: Dt 26,11

Alegrar-te-ás, então, por todas as coisas boas que Iahweh teu Deus deu a ti e à tua casa e, juntamente contigo, o levita e o estrangeiro que reside em teu meio.
As primícias dos cachos de uva, das espigas de grãos e de todos os frutos do solo israelita, são recolhidas num cesto, levados para o templo de Jerusalém pelo casal agricultor. Lá ele irá primeiramente professar a sua fé em Iavé, o Deus libertador e doador da terra prometida. Depois disto, o casal agricultor, em profunda gratidão e alegria, consumirá com sua família, com o levita e o estrangeiro todas as coisas boas que ele lhes proporciona.

14 Beneficiados pelo dízimo trienal: Dt 26,12-13

No terceiro ano, o ano dos dízimos,quando tiveres acabado de separar todo o dízimo da tua colheita e o tiveres dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva para que comam e fiquem saciados em tuas cidades, tu dirás diante de Iahweh teu Deus: “Tirei de minha casa o que estava consagrado e o dei ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme todos os mandamentos que me ordenaste, Não transgredi e nem me esqueci dos teus mandamentos.
O dízimo a cada três anos, é depositado nos portões da cidade para o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva (Dt 14,28-29). Esta lei de assistência e promoção social beneficia o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Por ocasião da oferenda das primícias no templo de Jerusalém, o casal agricultor deve declarar diante de Iavé que observou fielmente a lei do dízimo trienal e as demais treze leis de assistência e promoção social. Através da observância destas leis de assistência e de promoção social, o povo de Israel se torna uma sociedade sem empobrecidos e excluídos porque ela é uma sociedade solidária e de fraternidade.

Pedro Kramer, osfs
kramer_pedro@yahoo.com

PROJETO DE UMA SOCIEDADE SEM EMPOBRECIDOS E EXCLUÍDOS NA VIDA DOS PRIMEIROS CRISTÃOS NOS ATOS DOS APÓSTOLOS



Os primeiros cristãos nas comunidades em Jerusalém também procuraram viver a proposta de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. No livro dos Atos dos Apóstolos nós encontramos, sobretudo, três textos ou fotografias que apresentam os primeiros cristãos em Jerusalém testemunhando uma sociedade de partilha, de solidariedade e de fraternidade.

1 Estrutura dos sumários: At 2,42-47; 4,32-37; 5,12-16

Há consenso entre os pesquisadores de que os sumários se compõem de textos mais antigos e de adições posteriores. Alguns biblistas atribuem as partes mais antigas ao redator Lucas. Um deles é Jacques Dupont1. Outros peritos julgam que o redator Lucas tenha encontrado e usado uma fonte literária mais antiga, a qual ele desenvolveu, adicionando outros assuntos2. Eis o texto dos três sumários:

At 2,42 Eles eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações.
[43 Apossava-se de todos o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que se realizavam por meio dos apóstolos].
44 Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: 45 vendiam suas propriedades e bens, e dividam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um.
[46 Dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. E o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos].

At 4,32 A multidão dos que haviam crido eram um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum.
[33 Com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação].
34 Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade.

[At 5,12 Pelas mãos dos apóstolos faziam-se numerosos sinais e prodígios no meio do povo... Costumavam estar, todos juntos, de comum acordo, no pórtico de Salomão, 13 e nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, embora o povo os engrandecesse. 14 Mais e mais aderiam ao Senhor, pela fé, multidões de homens e de mulheres. 15 [...] a ponto de levarem os doentes até para as ruas, colocando-os sobre leitos e em macas, para que, ao passar Pedro, ao menos sua sombra cobrisse algum deles. 16 Também das cidades vizinhas de Jerusalém acorria a multidão, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros, os quais eram todos curados].

1.1 O que é um sumário?
Para Pablo Richard3, o sumário é um recurso literário típico de Lucas e é utilizado “para generalizar fatos concretos e para representar uma situação global e permanente [...] Um sumário é um resumo generalizador de fatos concretos, cf. 1,12-14; 5,42”. Para ele, o texto básico dos três sumários ou fotografias sobre a vida da comunidade cristã em Jerusalém é a frase em At 2,42-43. As demais frases dos sumários At 2,44-47; 4,32-35; 5,12-16 são desenvolvimentos e ampliações da frase básica, At 2,42-43. Ele ainda chama a atenção para a localização dos três sumários na estrutura dos cinco primeiros capítulos dos Atos: “O que nos é narrado nestes sumários são as atividades constitutivas da comunidade depois de Pentecostes; não se trata de fatos isolados, mas de ações permanentes e basilares”4.
Para os biblistas José Comblin e Ivo Storniolo apenas a frase At 2,42 provém de uma fonte literária ou de uma tradição mais antiga. Para Ivo Storniolo, At 2, 42 é o fundamento da vida da comunidade em Jerusalém: “Este versículo representa a fonte mais antiga, completada com outras notícias”5.
Para José Comblin, “o mais provável é que o v. 42 vem de uma tradição antiga. Lucas tomou-a como ponto de partida e desenvolveu esse versículo. De fato há muitas repetições nos três sumários”6.
Para Jacques Dupont7, At 2,42 não provém de uma fonte ou tradição mais antiga, mas é uma frase criada por Lucas. Esta, ele mesmo explica e pormenoriza em At 2,44-45 e em At 4,32.34-35. Para esse exegeta, três expressões, que caracterizam a fidelidade e a perseverança dos novos convertidos a Jesus Cristo, não parecem suscitar grandes dificuldades para a sua compreensão. Mas, a expressão, que os crentes eram perseverantes na koinonia, na comunhão fraterna, é ambígua e presta-se à discussão. Porque, para ele, At 4,32: A multidão dos crentes tinha um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum (koiná), refere-se a dois aspectos complementares ou a dois traços da vida comunitária dos primeiros cristãos: “a unidade espiritual existente entre os fiéis acarreta a prática da comunhão no plano dos bens espirituais”8.
Pablo Richard distingue o modo de viver em comunidade através de duas dimensões: uma subjetiva e a outra objetiva. Através da dimensão subjetiva os primeiros cristãos “constituíam um só corpo, com um só coração e uma só alma”9. A dimensão objetiva se caracteriza por três realidades básicas: 1) eles tinham tudo em comum, pois vendiam suas propriedades e bens (2,44-45); 2) tudo era repartido para cada um, conforme as suas necessidades (2,45; 4,35); 3) não havia nenhum necessitado entre eles (4,34).

1.2 A expressão: ‘Um só coração e uma só alma’

Jacques Dupont debruça-se sobre essas duas dimensões comunitárias dos primeiros cristãos em Jerusalém e procura entendê-las melhor. Ele primeiramente constata que a expressão ‘um só coração e uma só alma’ é tipicamente bíblica e pouco comum entre os gregos helenistas. No livro do Deuteronômio esta expressão é muito usada: Amarás a Iahweh, teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração (Dt 6,5-6; cf. 4,29; 10,12; 11,13; 13,4; 26,10; 30,2.6.10, etc).
Esse exegeta, além disso, observa que Paulo emprega nas suas cartas a expressão ‘uma só alma’. Ele exorta os cristãos filipenses para que vivam vida digna do evangelho, para que eu, indo ver-vos ou estando longe, ouça dizer de vós que estais firmes num só espírito, lutando juntos com uma só alma pela fé do evangelho (Fl 1,27). E pouco mais adiante ele acrescenta: levai à plenitude minha alegria, pondo-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento (2,2; 4,2; 2Cor 13,11; Rm 12,16; 15,5). Ele resume suas observações, destacando: “Esta parênese cristã nos esclarece sobre o ensinamento de Lucas quando descreve os primeiros cristãos como tendo ‘um só coração e uma só alma’: trata-se de sua perfeita concórdia, da total união dos espíritos reinante entre eles”10.
Para José Comblin, os dois termos “coração e alma designam juntos a personalidade no seu centro: formavam uma só pessoa, agindo, pensando, respirando, orando como uma só pessoa”11. A respeito disso, Ivo Storniolo escreve: “A comunidade tem um só coração e uma só alma, expressão bíblica que significa a comum unanimidade, isto é, o mesmo ânimo em todos, ânimo de viver o projeto de Deus e empenhar tudo no serviço a esse projeto”12.
Neste contexto é ainda relevante observar que as três fotografias das comunidades cristãs em Jerusalém estão localizadas no livro dos Atos após a vinda e a recepção do Espírito Santo. Se, portanto, os cristãos se deixarem guiar e conduzir pelo Espírito de Deus e de Jesus, então, sim, a vida nova e relações de qualidade são possíveis entre os cristãos. Esta proposta de vida, além disso, vem reforçada pelo fato de que os primeiros cristãos eram perseverantes no ‘ensino dos apóstolos’. Este anúncio apostólico compreendia a ressurreição de Jesus e sua vida como testemunha do Reino de Deus. Esta fundamentação e motivação tornam facilmente compreensíveis que os primeiros cristãos, de fato, partilhavam tudo o que são e o que têm. A respeito dessa atitude, Jesus foi muito claro. Para uma pessoa, de certo destaque econômico e social, ele propõe: Uma coisa ainda te falta. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me (Lc 18,22; 5,11.18; 14,33).

2 Perseverança dos cristãos na comunhão fraterna

Para Jacques Dupont, a comunhão de bens entre os primeiros cristãos em Jerusalém é conseqüência do fato de que eles gozam dos mesmos bens de Deus, de Jesus e do Espírito Santo: “São esses bens compartilhados por todos juntos, que asseguram o fundamento objetivo da comunhão fraterna. Uma comunhão tão profunda conduz naturalmente à obrigação de partilhar bens temporais com os que deles carecem”13. Ele exemplifica isso na atitude de Paulo que, com motivações diferentes, organiza coletas entre as suas comunidades para as comunidades pobres de Jerusalém: A Macedônia e a Acaia houveram por bem fazer uma coleta em prol dos santos de Jerusalém que estão na pobreza. Houveram, por bem, é verdade, mas eles lhes eram devedores: porque se as nações participaram dos seus bens espirituais devem, por sua vez, servi-los nas coisas temporais (Rm 15,27-28; cf. 2Cor 8-9).

2.1 Eles tinham tudo em comum

As afirmações, tanto em At 2,44: Eles tinham tudo em comum como em At 4,32: tudo entre eles era comum, destacam o adjetivo koiná, ‘comum’. Ele faz eco ao substantivo, koinonia, ‘comunhão’. Para Jacques Dupont14, na antiguidade não havia a propriedade privada. A felicidade desses tempos primitivos era o ideal de uma vida em sociedade segundo a natureza, onde tudo era comum a todos. Esse ideal de uma vida social encantou os filósofos gregos, como Pitágoras, Platão e Aristóteles. O provérbio que os motivou a pôr tudo em comum era: “Entre amigos tudo é comum”.
No país de Israel há também um grupo que procura viver a comunhão de bens. São os essênios. Suas motivações, porém, não provêm da filosofia grega. A respeito deles escreve Flávio Josefo: ”Desprezam a riqueza e seus usos comunitários causam admiração. Procurar-se-ia em vão entre eles alguém, cuja fortuna superasse a dos demais. Com efeito, é lei que os que aderem à seita renunciam a seus bens em favor desta, de modo que entre eles não existe a humilhação da indigência, nem o orgulho da riqueza, mas juntam-se as posses de todos, para formar uma só propriedade, como acontece entre irmãos [...] Os administradores da propriedade comum são escolhidos mediante imposição das mãos, enquanto que um como o outro deve estar disposto ao serviço de toda a comunidade” (Bell. II,8,3 na versão alemã).

2.2 Não havia entre eles qualquer indigente

A afirmação acima, de que as comunidades cristãs em Jerusalém tinham tudo em comum, era muito conhecida no mundo helenista, sobretudo pelos filósofos gregos. A característica dos primeiros cristãos em Jerusalém, em At 4,34: Não havia entre eles necessitado algum, parece ter ligação com Dt 15,4: É verdade que em teu meio não haverá nenhum pobre, porque Iahweh vai abençoar-te na terra que Iahweh teu Deus te dará, para que a possuas como herança. Para que uma comunidade alcance que nela não haja necessitados é obviamente necessário que todos partilhem o que têm em termos econômicos, em serviços sociais e em doação. Ivo Storniolo constata: “É o advento simbólico de uma nova humanidade, que usufrui igualitariamente da vida – dom que Deus deu a todos”15.

2.3 Vendiam suas propriedades

Das primeiras comunidades cristãs em Jerusalém diz-se ainda que os cristãos vendiam suas propriedades e bens e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um (At 2,45). Os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade (At 4,34-35). Neste contexto destaca-se a generosidade de Barnabé (At 4,36-37) e a falta de generosidade do casal Ananias e Safira (At 5,1-11). Porque ninguém era obrigado a vender uma propriedade e depositar o montante recebido para criar o equilíbrio econômico na comunidade. O pecado do casal consistia em querer enganar os apóstolos. Ele queria dar a impressão de generosidade e de doação, entregando o valor total da venda, quando, de fato, desvia uma parte do valor da venda.
Outras informações do livro dos Atos mostram-nos que a partilha e a generosidade dos cristãos em Jerusalém eram necessárias. Em At 6,1-7 descreve-se o fato da assistência diária às viúvas em Jerusalém. Além disso, os apóstolos da Galiléia, vivendo e atuando em Jerusalém sem poder exercer uma profissão, também deviam ser sustentados pelos cristãos de Jerusalém. Disto tudo José Comblin conclui: “A visão lucana da comunidade de Jerusalém não é pura utopia, mas ela reflete uma certa realidade histórica. Por isso mesmo a descrição mistura traços utópicos com traços de realismo prático”16.

2.4 A novidade das comunidades cristãs

José Comblin observa que a comunhão fraterna entre os cristãos era nova, singular, inédita e inaudita. Porque a comunhão fraterna nas comunidades gregas era concretizada entre amigos e a koinonia nas comunidades monásticas dos essênios era praticada entre iguais. Mas, a koinonia nas comunidades cristãs é uma novidade porque era vivida entre cristãos ricos e pobres. Aqueles, movidos pela proposta do Reino de Deus por uma sociedade sem empobrecidos e excluídos e pelo testemunho de Jesus, vendiam o que têm com a finalidade de criar a comunhão fraterna entre membros ricos e pobres. Esta koinonia cristã de bens é material e concreta. Aqui não se trata de disposições interiores nem de sentimentos: “Esta representação supõe que há ricos que têm bens para vender e pobres que somente têm necessidades. Entre eles se restabelece a igualdade. Pois a comunhão é igualdade de condições”17. Esta é a proposta de solução de Lucas e de Paulo para que haja uma sociedade nova e alternativa, sem empobrecidos e excluídos.

3 Perseverança dos primeiros cristãos no ensinamento dos apóstolos, na fração do pão e nas orações

Como já foi dito acima, quatro são os elementos constitutivos da vida das primeiras comunidades em Jerusalém. O que quer dizer, ser perseverante na didaké, ‘ensinamento’ dos apóstolos? Para o redator Lucas isto significa optar por Jesus morto e ressuscitado e seguí-lo conforme seus ensinamentos e dos apóstolos, contidos no evangelho segundo Lucas. Ele é o fundamento e o corrimão das comunidades cristãs.
O que quer dizer, ser perseverante na fração do pão? A expressão klassei tou artou, ‘partir ou fracionar o pão’ refere-se à celebração eucarística (At 20,7; 1Cor 10,16). Segundo o costume judaico, no início da refeição o pai de família ou o líder do grupo tomava o pão, agradecia a Deus, partia o pão e dava um pedaço aos presentes. Assim fazia Jesus nas refeições com seus discípulos e também o repetiu na última ceia. Os cristãos celebravam a eucaristia nas suas casas: partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Nas comunidades paulinas (1Cor 10,16; 11,25) a celebração eucarística era precedida por uma refeição comunitária. Esta era talvez a única refeição por dia para os pobres e era uma chance aos ricos para que partilhassem com os necessitados o alimento, criando assim a comunhão fraterna. A respeito disso, Ivo Storniolo escreve: “A Eucaristia se tornava, então, o anúncio profético de uma humanidade reconciliada, perenizando o dom do amor num gesto de partilha concreto: a refeição em comum”18.
O que quer dizer, ser perseverante nas orações? Os cristãos não só celebravam a eucaristia nas suas casas, mas também dia após dia, unânimes, encontravam-se assíduos no Templo (At 2,46). Especialmente as comunidades cristãs em Jerusalém seguiam os costumes dos judeus que se reuniam no templo para rezar. Lucas destaca a continuidade entre os cristãos e os judeus, rezando juntos no templo. A celebração eucarística como a novidade e a particularidade cristã, no entanto, acontecia nas casas.
Lucas igualmente ressalta a continuidade entre os cristãos e os judeus no fato de os apóstolos realizarem prodígios e sinais (At 2,43; 4,33; 5,12-16) assim como Jesus os realizava. Isto expressa que Deus está com eles, como estava com Jesus, e assim eles continuam a prática poderosa e libertadora de Jesus ressuscitado, na força do Espírito Santo, para que haja uma sociedade sem empobrecidos e excluídos.

Bibliografia
COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. V. I: 1-12. Petrópolis: Vozes, 1988.
DUPONT, Jacques. Estudo sobre os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1974.
RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição. Uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999.
STORNIOLO, Ivo. Como ler Os Atos dos Apóstolos. O caminho do evangelho. São Paulo: Paulus, 1993.


Pedro Kramer, osfs
kramer_pedro@yahoo.com


1 DUPONT, Jacques. Estudo sobre os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1974, pp. 505-506.
2 COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. V. I: 1-12, Petrópolis: Vozes, 1988, p. 106. RICHARAD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição. Uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999, pp. 45-50. STORNIOLO, Ivo. Como ler Os Atos dos Apóstolos. O caminho do Evangelho. São Paulo: Paulus, 1993, pp. 41-46.
3 Op. cit., p. 45
4 Op. cit., p. 46
5 Op. cit., p. 41
6 Op. cit., p. 106
7 Op. cit., pp. 505-506
8 Op. cit., p. 514
9 Op. cit., p. 47
10 Op. cit., p. 516
11 Op. cit., p. 129
12 Op. cit., p. 59
13 Op. cit., p. 517
14 Op. cit., pp. 506-510
15 Op. cit., p. 59
16 Op. cit., pp. 127-128
17 Op. cit., p. 105

18 Op. cit. p. 45