segunda-feira, 2 de maio de 2016

SICKO - SOS Saúde, Michael Moore

SICKO - SOS Saúde
Michael Moore

Mais um bom documentário de Michael Moore, depois de Fahrenheit 9/11 e Tiros em Columbine, SICKO SOS Saúde destaca o sistema de saúde americano, empresas de plano de saúde que negam assistência a pacientes e tratamentos em nome do lucro.

Outras "ideologias": para além da discussão sobre relações e ideologia de gênero

Outras "ideologias": para além da discussão sobre relações e ideologia de gênero


Pedrinho A. Guareschi*


Estava resistindo em comentar esse tema. Faço com cuidado, sei que há visões diferentes, mas talvez - quem sabe? - essas reflexões que tento partilhar, poderão ajudar a ver essas questões com mais clareza. Acredito que é principalmente através do diálogo, onde todos possam falar em pé de igualdade, que será possível estabelecer uma "instância possível do dever ser", uma instância ética e crítica.


Escrevo isso também pressionado por alguns/mas colegas que estão um tanto "apavorados/as" com o que estão vendo e ouvindo, a partir principalmente de determinadas igrejas. Eles/as me questionaram: não vai comentar nada? É também por amizade e respeito aos colegas que me animo a refletir. E um pouco também devido à histeria que pude ouvir e ler das discussões na Assembleia Legislativa do RS.


Faz ao menos 40 anos que esse tema me interessa. E não só a questão do gênero, mas principalmente a questão da ideologia. Agora, quando se junta ideologia e gênero, o problema se multiplica. Há inúmeros grupos e linhas de pesquisa, nos programas de pós-graduação de todo o Brasil, que discutem "relações de gênero". Engraçado que apenas agora essa questão tenha vindo à tona. Só esse fato – de isso só estar sendo questionado agora – já me deixa pensando. Que há por detrás disso? O que há aqui além das relações de gênero? Vou dizer o que penso, com cuidado e humildade, sabendo que há inúmeras outras visões.


De tudo o que pude ler e ouvir nesses mais de 40 anos, sempre entendi que a discussão sobre "gênero" está ligada à questão do melhor entendimento de quem é o ser humano, por um lado; e à questão da ideologia, por outro lado, que – ao menos em minhas investigações e análises – está ligada à ética. Discuto esses dois pontos e arrisco uns comentários.


Quem é o Ser Humano


Quero deixar claro que meu enfoque de análise é a partir da psicologia social, que compreende tanto contribuições da sociologia, como da psicologia. A reflexão sobre essa relação entre a pessoa (entendo pessoa como relação, na visão de Agostinho de Hipona) e sociedade, procura, entre outras coisas, compreender como nós nos construímos. E a partir de incontáveis investigações e análises, grande parte dos analistas chegam a afirmar que nossa subjetividade se constrói a partir de milhares, milhões, de relações que estabelecemos com os outros seres humanos, com o mundo, com as coisas. O ser humano, entendido como um todo, é mais que seu corpo, sua dimensão biológica, anatômica. Ele é muito mais, repito, para quem o tenta compreender a partir da psicologia social. Ele tem uma dimensão material, biológica, mas ele é – alguns chegam a dizer principalmente – um ser social. E a isso se costuma chamar de subjetividade: a soma total de suas relações. Não se nega sua singularidade: somos seres únicos, irrepetíveis. Mas nossa subjetividade é uma colcha de retalhos construída desde o momento em que estabelecemos a primeira relação (Discuto isso com mais detalhes em Psicologia Social Crítica – como prática de libertação. Porto Alegre: Edipucrs, 5ª ed). Há inúmeros enfoques que abordam essa questão. O mais comum é o dos estudos sobre socialização. Ninguém cai do céu pronto e permanece a vida toda solitário. Desde o primeiro momento, ao romper o cordão umbilical, começamos a ser inseridos como singularidades misteriosas, na comunidade dos humanos. Não existem meninos-lobo. E assim nos vamos construindo.


Agora a questão do gênero. Ninguém, de posse de suas faculdades mentais, pode negar que no desenvolvimento das pessoas, elas vão sendo influenciadas por relações que são estabelecidas entre meninas e meninos, entre filhos e pais, etc. E que nessas práticas elas vão 'aprendendo' o que é ser menino/menina, homem/mulher. E mais: que essas relações que vão sendo estabelecidas carregam consigo conotações de valor que são diferenciadas: algumas dessas condutas são consideradas corretas e convenientes para os meninos, outras para as meninas. E muitas vezes essas diferenças valorativas podem levar as pessoas a se acharem inferiores, ou superiores, às outras. Nem sempre essas relações são igualitárias, exercidas de modo isento e justo. Veja as relações nas escolas, nas famílias, no trabalho. E ainda mais: hoje em dia, envolvidos como estamos com as onipresentes mídias, vê-se claramente como mulheres e homens são tratados de modo diferente. Há milhares de pesquisas que mostram isso.

Pois é disso que tratam as "relações de gênero". Na maioria absoluta dos artigos e livros que li, nas discussões de que participei, nunca encontrei um estudioso das relações de gênero que negasse que os seres humanos nascem e se apresentam como machos e fêmeas. O termo "gênero" foi criado para se poder falar das práticas e relações que vão se estabelecendo a partir dessa realidade biológica. Não consigo entender essa histeria e obsessão com o termo gênero. Ninguém tem o direito de se apossar de um termo, de um conceito, proibir que ele seja empregado e que seja discutido, como está acontecendo nessas polêmicas furiosas a respeito dos planos de educação. O termo gênero existe há pelo menos 50 anos, tem uma história consolidada na literatura, nos grupos e linhas de pesquisa, nos programas dos cursos de pós-graduação. Por que agora deve ser proibido, até mesmo ser suprimido? Durkheim, quando começou a analisar a desordem das sociedades, principalmente a francesa, depois da Revolução, não tinha palavras para designar aquele estado de coisas. Então criou o termo "anomia", que significa a confusão, a ausência de normas estabelecidas. Foi seu instrumento de trabalho. Vejo uma nítida semelhança com o conceito gênero. Era necessário um conceito que designasse aquilo que os seres humanos vão construindo, a partir de sua socialização, no que diz respeito ao fato de haver diferença de sexo. Pois gênero é esse conceito que eu uso para além do sexo: somos machos e fêmeas, mas na construção de nossa identidade social, somos femininos e masculinos. São literalmente milhares de autores que usam essa ferramenta nesse sentido. Com que direito alguém se apodera do termo e proíbe de empregá-lo?


Ideologia


Essa uma questão escorregadia. Todo mundo fala de ideologia, mas difícil, em geral, saber o que estão entendendo. Desde que me conheço por gente, presto atenção a essa questão. Tenho colecionadas mais de 60 noções de ideologia. Acho que por honestidade, quando alguém usar esse termo, deve dizer o que entende por ele. Isso vale para todos, seja quem for. De outro modo, será impossível as pessoas se entenderem.


Vou ser coerente e digo o que entendo por ideologia. Bem curto: é o uso de 'formas simbólicas' (ideias, textos, imagens, falas, etc.) para criar, ou reproduzir, relações de dominação (injustas, desiguais). É um entendimento de ideologia como algo negativo, fica claro. Sei que há outros entendimentos, como ideologia entendido no sentido positivo como uma cosmovisão, conjunto de ideias, etc. Mas quando falo ideologia aqui, é no sentido crítico e negativo.


Juntamos agora os dois pontos: por que se tornou tão importante (e urgente) discutir relações de gênero? Exatamente porque na medida em que os seres humanos – nós – fomos nos constituindo historicamente, pelo fato de sermos diferentes, isto é, machos e fêmeas, um grupo foi criando estratégias, mecanismos ideológicos, isto é, conjuntos de proposições, afirmações, legitimações, crenças e principalmente práticas que servem para uns dominarem sobre os outros. Então a questão de gênero se junta à questão da ideologia, onde ideologia passa a ter uma dimensão ética. É isso que fundamentalmente se quer investigar, refletir, discutir, quando se fala em relações de gênero e ideologia.


Alguns comentários oportunos


Permitam-me agora alguns comentários conclusivos. Ao analisar as celeumas e vociferações sobre esse tema, fui descobrindo algumas coisas curiosas e surpreendentes que comento aqui com cuidado e com respeito. São provocações que faço. E as coloco aqui porque estou vendo que podem estar presentes aqui algumas estratégias, essas sim certamente bem ideológicas, no sentido que coloquei acima. Não aceite o que comento aqui, mas pense, por favor:


a) Estou lendo tudo o que posso sobre o tema. Surpreendentemente, vejo que a grande maioria dos que estão discutindo e gritando "contra as relações de gênero" (que será que estão entendendo?), ou contra a "ideologia de gênero", são homens. Por que será? Mais importante, contudo, é a constatação seguinte: das poucas mulheres que se arriscam a comentar o assunto, praticamente todas não estão preocupadas com o tema. Algumas até estranham a ferocidade da discussão. Não vêem razões sérias para essa fúria. Desculpem, mas entrevejo aqui uma pista que pode iluminar o problema: será que as pessoas (os homens) não estão preocupados e amedrontados porque, de repente, através de uma educação em que se procura discutir as desigualdades (e até injustiças) históricas criadas e instituídas contra as mulheres, os homens (os machos) estejam percebendo que estão perdendo seus privilégios? Não será talvez porque de repente, com a superação dessas "relações desiguais de gênero", não iremos ter mulheres e homens em número mais ou menos igual na política, câmaras municipais, estaduais, federais? Não será talvez porque desse modo as mulheres passarão também ocupar cargos executivos nas empresas na mesma proporção que os homens? Ou – ainda mais importante! – que as mulheres, e as profissões exercidas predominantemente por mulheres, passem a receber salários semelhantes aos homens, em vez de receber em média 30% a menos? Ou não será talvez porque nas famílias os homens tenham também de começar a partilhar o "terceiro turno de trabalho" das mulheres, devido ao qual a grande maioria delas têm de, além dois turnos de trabalho fora, fazer comida, lavar a roupa, limpar a casa, etc? Como mostra a significativa piada machista: Qual o feminino de "deitadão no sofá vendo televisão?" – Resposta: "Em-pé-zona na pia lavando a louça". Vamos pensando.


b) O segundo comentário é um pouco mais delicado e, talvez, doloroso, mas merece e precisa ser refletido. Não é difícil perceber que muitos dos que estão eriçados com a discussão são homens celibatários. Interessante que essa discussão veio num momento em que entra em jogo a questão da diversidade sexual. Isso deixa a muitos um tanto desorientados. Então: no momento em que se proíbe até mesmo de falar ou escrever sobre "relações de gênero", fica muito mais fácil afastar os medos e temores que a discussão sobre esse tema poderia acarretar. Ancora-se a questão das diversidades sexuais à ideologia e relações de gênero, condenam-se essas questões e joga-se tudo no caldeirão de males que têm de ser evitados e execrados.


c) Permito-me um último comentário, também muito curioso, que perpassa as ferrenhas discussões que estão sendo travadas. Pergunto-me: porque será que esse tema se tornou tão importante para alguns políticos, principalmente os evangélicos das levas midiáticas mais recentes? Será apenas devido a questões de justiça, de democracia, de ética? Ou escondem-se por detrás alguns interesses talvez escusos?

Explico: entrevejo aqui uma estratégia política bastante sutil, mas sobre a qual precisamos jogar mais luz. Não podemos ser ingênuos. Ronda em nosso meio uma gama de políticos espreitando uma ocasião para se promoverem politicamente, ficar famosos, construir seu "capital político". E não há maneira mais prática e eficiente do que "aparecer na mídia". É evidente que esse tema se presta muito a sensacionalismo, por um lado; e, por outro lado, traz credibilidade, a moeda mais importante do capital político, pois liga esse político a "causas nobres, morais". Ele aparece como alguém interessado em assuntos morais, "do evangelho"; um novo campeão da moralidade.

Não se espantem com a consideração que segue: essa estratégia passa a ser ainda mais perversa e hipócrita quando se passa a "construir um inimigo", que pode ser um fato, ou uma causa, absolutamente indefensáveis e inaceitáveis, e então se junta a ele o tema em discussão - no nosso caso a questão de gênero e ideologia. Trago um exemplo: escutei um desses defensores da moralidade dizendo que se forem "aprovadas as relações de gênero" então os professores terão de fazer o que um deles já teria feito: levar meninos e meninas, de 8 a 10 anos, para a praça e obrigá-los a se beijarem: os meninos aos meninos e as meninas às meninas! Ora, quem não fica estarrecido diante de um suposto fato como esse? Pois essa é a estratégia: cria-se um inimigo ou um fato indefensável (ninguém sabe se é verdade...), ancora-se a ele o que se quer execrar e joga-se tudo no fogo da ira divina. Presença e notoriedade na mídia é o que não vai faltar a tais defensores da moral e dos costumes. E junto com isso o acúmulo de um ingente "capital político" que o ajudará a se eleger nas próximas eleições. Em ponto menor, mas certamente não menos irresponsável e criminoso, é o que faz a grande mídia quando traz, por exemplo, uma notícia sobre a redução da idade penal e imediatamente apresenta um fato chocante de um menor que assassinou uma pessoa e mostra o depoimento ao vivo do pai, ou mãe, dessa pessoa assassinada que comenta: "E esse 'menor' vai ficar recolhido apenas alguns meses e depois vai ser solto". E agora a prática criminosa: a reportagem não diz que crimes contra a vida cometidos por menores entre 16 a 18 anos são apenas 0,03 por cento! É evidente que com notícias assim, mais de 80% da população passa a se dizer a favor da redução da maioridade penal.


Concluo: só decidi trazer ao palco das discussões essas reflexões porque estou assistindo a falas e cenas que precisam ser questionadas, caso contrário podem levar a situações ainda piores das supostamente por elas denunciadas. Quando vejo determinadas pessoas, revestidas de símbolos de poder, em tom peremptório e ameaçador, alertar preocupadíssimas sobre o perigo das "relações de gênero", ou da "ideologia de gênero", fico pensando: o que estão querendo de fato? Têm consciência do que estão incriminando? Uma coisa é certa: uma fala honesta, responsável e justa exige, no mínimo, que se diga com clareza do que se está falando e o que se entende com as palavras usadas.



* Pedrinho A. Guareschi é graduado em Filosofia, Teologia e Letras; pós-graduado em Sociologia; mestre e doutor em Psicologia Social; pós-doutor em Ciências Sociais em duas universidades (Wisconsin e Cambridge); pós-doutor em Mídia e Política na Università degli studi 'La Sapienza'; professor na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); seus estudos, pesquisas e experiências focalizam a Psicologia Social com ênfase em mídia, ideologia, representações sociais, ética, comunicação e educação; é conferencista internacional.



http://fepoliticaetrabalho.blogspot.com.br/2015/06/outras-ideologias-para-alem-da.html

Carta Aberta às Comunidades Sobre a Atual Conjuntura Política do Brasil

Carta Aberta às Comunidades Sobre a Atual Conjuntura Política do Brasil

"Quero ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual riacho que não seca" Am 5, 24.

Os agentes de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, reunidos, nos dias 28 de março a 02 de abril de 2016, em São Félix do Araguaia, MT, com o bispo Dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga, manifestam grande preocupação com o momento sociopolítico que vivenciamos atualmente.

Sabemos que uma crise econômica, que se iniciou de forma concreta em 2008, está afetando fortemente o sistema capitalista e tem provocado, por parte de grandes empresas e países ricos como os Estados Unidos, uma investida violenta em diversos países em desenvolvimento. Tais países são vistos como fornecedores de matéria prima e mão de obra barata para alimentar o luxo e o consumo dos ricos de fora e da elite interna que tem se tornado cada vez mais rica e opulenta.

Povos e comunidades são desconsiderados e expropriados de seus direitos para abrirem espaços para as grandes empresas. No Brasil, a conjuntura atual é caracterizada por uma profunda crise política institucional, que ameaça as conquistas democráticas, rompendo com o pacto social realizado nas últimas décadas, bem como com o respeito aos valores humanos básicos.

Como Igreja, apoiamos o combate às injustiças e a corrupção e apelamos ao Ministério Público e ao Judiciário que ajam com isenção, rigor e imparcialidade no exercício de suas funções, punindo os responsáveis independentemente do partido a que pertençam.

O momento atual que a sociedade brasileira atravessa é delicado e exige acima de tudo uma reflexão aprofundada isenta de paixões e partidarismos. Apelamos para o bom senso dos integrantes do Congresso Nacional (Deputados e Senadores), afim de que saibam olhar a complexidade e delicadeza desse momento. Não podemos retroceder nas conquistas democráticas alcançadas.

Repudiamos a tentativa de desestabilização de um Governo democraticamente eleito, sob o risco de conduzir o País ao caos generalizado. Grupos conservadores, respaldados pela grande mídia, passam uma visão superficial e manipulada do grave momento que o país vive.

Acreditamos que a sociedade brasileira, civil e organizada, esteja à altura de compreender a gravidade do momento e dizer NÃO a qualquer tentativa de golpe.

O Povo já superou graves crises institucionais, saberá manter a serenidade e de forma pacífica fará valer o Direito e a Justiça.

São Félix do Araguaia – MT, 02 de Abril de 2016.

domingo, 1 de maio de 2016

Centrais sindicam fazem ato em defesa da democracia e dos direitos trabalhistas

1/maio/2016, 16h02min

Centrais sindicam fazem ato em defesa da democracia e dos direitos trabalhistas

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Além de se manifestar pelo Dia do Trabalhador, centrais também protestaram contra o golpe | Foto: Guilherme Santos/Sul21


Débora Fogliatto

Neste 1º de maio, Dia Internacional do Trabalhador, atos por todo o Brasil tiveram como objetivo conectar as reivindicações pelos direitos sociais e trabalhistas à luta pela democracia. Frente à conjuntura política nacional que ameaça o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo fizeram mobilização no Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre, destacando aos possíveis retrocessos caso o golpe se concretize.

O ato na capital gaúcha, que foi tanto político quanto cultural, reuniu principalmente trabalhadores ligados a centrais sindicais e a partidos de esquerda. Primeiro a se manifestar no carro de som, Christopher Goulart (PDT) mencionou que a data é importante para os trabalhistas e homenageou seu avô, o ex-presidente João Goulart, destituído pelo golpe de 1964. "Foi ele quem concedeu aumento de 100% aos trabalhadores, implantou o décimo terceiro salário. Esse projeto reformista foi objeto do golpe de 64, e hoje a situação é muito parecida. E esse é o motivo pelo qual estamos na rua hoje", afirmou.

Antes da votação na Câmara de Deputados, o PDT havia definido em executiva nacional que se posicionaria contra o impeachment, mas alguns parlamentares optaram por votar a favor, o que ocasionou abertura de processos de expulsão do partido. Além do PCdoB, aliado histórico do PT, também votou integralmente contra o PSOL, o qual teve representantes no ato deste domingo. Berna Menezes, que falou em nome da executiva nacional do partido, destacou que os direitos trabalhistas foram "conquistados com suor, com luta", e não "dados por um governo". "É por isso que é na rua e na luta que vamos conquistar mais e manter esses direitos", defendeu ela.

 Foto: Guilherme Santos/Sul21

Ato aconteceu no Parque da Redenção, em Porto Alegre | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A deputada estadual Manuela D'Ávila (PCdoB) lembrou que a luta "não é por um governo, pois governos são apenas instrumentos para conseguirmos mais conquistas". Ela também saudou os deputados federais, os quais classificou como "heróis que denunciaram o golpe na Câmara Federal". "Dizer não ao golpe é dizer sim aos direitos da classe trabalhadora. Ainda estamos no primeiro degrau, mas é só a partir daí que vamos conseguir conquistar os outros", completou.

O ato começou às 10h, mas foi apenas enquanto os representantes de partidos faziam suas falas que os manifestantes começavam a se empolgar, por volta das 11h. Eventualmente, alguém puxava um "não vai ter golpe, já tem luta" e agitava as bandeiras da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Central dos Trabalhadores Brasileiros (CTB) e de partidos.

O presidente estadual do PT, Ary Vanazzi, foi um dos mais aplaudidos, ao destacar que, caso Dilma seja destituída, "quem vai pagar a conta é o trabalhador". Ele também lembrou que muitos dos parlamentares que estão na linha de frente do golpe estão sendo eles mesmos investigados por corrupção. "Queremos ter o direito de ter voz e de sermos respeitados, vamos derrubá-los. Se não for no Congresso, vai ser nas ruas. Vamos construir nossa luta, nossa história, e derrubar a burguesia", completou.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

O Nobel da Paz Esquivel mencionou a importância de unificar lutas na AL | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Também esteve presente no ato o arquiteto, ativista argentino e ganhador do Nobel da Paz  Adolfo Péres Esquivel, que se reuniu com Dilma durante esta semana. Em sua fala, em "portunhol", ele destacou a necessidade de união entre os povos da América Latina contra golpes de Estado. "Não queremos mais golpes em nosso continente. Temos que deixar de lado as diferenças nesse momento, porque há algo mais importante, que é a defesa da democracia no Brasil. A riqueza de um povo é sua diversidade, sua consciência crítica. Os povos da América Latina têm que estar unidos", defendeu.

Um dos momentos em que essa união ficou mais visível foi quando os cantores Lili e Bruno entoaram "Apesar de Você", de Chico Buarque, que foi acompanhada por grande parte dos manifestantes presentes. Em seguida, também cantaram "Meu coração é vermelho" e uma adaptação de "Não deixe o samba morrer": "Não deixe o sonho morrer, nem a mudança acabar. O povo não sente mais fome e tem casa pra morar". Em seguida, foi feita uma homenagem para os deputados federais e estaduais que defendem a democracia.

 Foto: Guilherme Santos/Sul21

Deputados foram homenageados no ato | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Os últimos a se pronunciarem foram os representantes das centrais sindicais que organizaram o ato. Jerônimo Menezes, da Intersindical, destacou que "os setores que defendem o golpe querem atacar direitos da classe trabalhadora para garantir suas taxas de lucro". O presidente da CTB, Guiomar Vidor, classificou os deputados que defendem o impeachment como "quadrilha que representa o conservadorismo", apontando o papel do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB) e do vice-presidente Michel Temer (PMDB). "Não podemos aceitar que eles tenham seu projeto implantado. Tivemos avanços e eles não aceitam isso. Querem acabar com a CLT (consolidação das leis do trabalho) e com os direitos dos trabalhadores", afirmou.

O histórico da data foi citado pelo presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, que contou que, em 1886, nesta data, teve início uma greve geral em Chicago, nos Estados Unidos, que foi reprimida fortemente pelo poder público, gerando mortes provocadas pela polícia. "Nessa época, no Brasil a mão-de-obra ainda era escrava. A burguesia nunca esteve a favor dos trabalhadores, e hoje estamos nas ruas para denunciar o golpe financiado pelos patrões", mencionou.

Confira mais fotos:

01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

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01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

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01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

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01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

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01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

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01/05/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato do 1 de maio, Dia dos Trabalhadores, em defesa da democracia e contra o golpe, no Parque da Redenção Foto: Guilherme Santos/Sul21

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

‘Estamos vivendo espetacularização fascista e mídia e Judiciário estão apodrecidos’, diz Tiburi

A intolerância política tem provocado uma série de agressões contra pessoas que defendem o estado democrático de direito no país. O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi hostilizado num hospital. O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, foi ofendido numa livraria. A senadora petista Gleisi Hoffmann, foi vaiada num aeroporto. O secretário de saúde da prefeitura de São Paulo, Alexandre Padilha, foi agredido verbalmente num restaurante. Na última sexta-feira (22/04), o ator José de Abreu, filiado ao PT, também foi alvo de agressões num restaurante e reagiu com uma cusparada. A mesma reação que o deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro, teve após ouvir insultos do deputado Jair Bolsonaro, do PSC carioca, que homenageou o torturador Carlos Alberto Ustra, durante votação do processo de impeachment na Câmara Federal. E no último domingo (24/04) o jornalista Pio Redondo perdeu três dentes após ser agredido por pessoas acampadas em frente ao prédio da Fiesp que defendem o impeachment de Dilma Rousseff. A intolerância constatada nesse período de crise política no país é analisada pela filósofa Marcia Tiburi, autora do livro "Como conversar com um fascista". A repórter Marilu Cabañas conversa com a filósofa que fala direto da Suécia onde lança essa publicação.

http://www.redebrasilatual.com.br/radio/programas/jornal-brasil-atual/2016/04/2018estamos-vivendo-espetacularizacao-fascista-e-midia-e-judiciario-estao-apodrecidos2019-diz-tiburi





FASCISMO

'Instituições ensinam as pessoas a odiar', diz Marcia Tiburi

Filósofa diz que intolerância política é fomentada pelos meios de comunicação hegemônicos e pelo Judiciário: "Estão apodrecidos"
por Redação RBA publicado 27/04/2016 11:55, última modificação 27/04/2016 12:53
REPRODUÇÃO/TV BRASIL
marcia_tiburi_grande.jpg

Marcia Tiburi afirma que as pessoas fascistas estão criando um 'mal-estar profundo na sociedade'

São Paulo – A filósofa Marcia Tiburi vê a intolerância política crescente no país como "uma estranha autorização das pessoas que não refletem, não raciocinam, sem um pensamento voltado à questão social, que se manifestam contra aqueles que se posicionam contra o golpe, ou seja, daqueles que tem uma visão da sociedade mais ampliada."

"Acho que estamos vivendo uma espécie de escândalo fascista. Há um momento de avanço da espetacularização fascista no dia a dia. O que está estarrecendo todo mundo é essa autorização pessoal que vemos nas ruas, o medo por estar com uma roupa vermelha ou por ter uma posição crítica da sociedade. O que chama a atenção dessas figuras que têm se jogado numa forma de pressão fascista, preconceituosa, agressiva e, sobretudo, autorizada para expressar a intolerância", afirmou Tiburi, em entrevista à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

A filósofa usa o termo "fascistizado" para denominar o Congresso Nacional, onde ela vê raras exceções, como os parlamentares de esquerda mais críticos, mas que são minorias. Ela alerta que o cidadão comum, que não tem poderes, também expressa o fascismo. "Tem uma coisa que é interessante. O fascista não escuta, é uma personalidade autoritária. Ele não está aberto ao outro, pois possui um pré-julgamento do outro. Ele o trata como 'um petista' e vai xingá-lo. Esse ódio é fomentado e manipulado pelos meios de comunicação, a pessoa apenas repete o discurso de certas mídias, hegemônico, como a televisão e jornais de grande circulação. O fascista apenas repete o discurso pronto, ele se apodera de uma espécie de capital de conhecimento e consegue calar os outros."

Para ela, seria importante avaliar o cotidiano dessas pessoas que não param para pensar. "Essa é uma figura que é preciso ter uma atenção, estudar, porque há muitos problemas subjetivos, políticos, psíquicos e até psicanalíticos envolvidos. Tudo isso é feito do vazio do pensamento", explica a filósofa. "O pensamento está em baixa, muitas pessoas se negam a refletir, questionar, perguntar o que está acontecendo."

Ela acredita que a amplitude da conjuntura atual está criando um mal-estar profundo na sociedade. "Existe um arranjo sistêmico. Um golpe do Judiciário, que está apodrecido, além da mídia apodrecida, que faz existir o braço midiático no golpe. Há também o golpe cotidiano, que o mero cidadão que pratica o golpe de si mesmo, que se aliena através d um reality show, onde aprendeu um ritual de sacrifício, acha que pode praticar o pequeno golpe definindo que o presidente tem que sair."

Autora do livro Como conversar com um fascista, Marcia acredita que aqueles que defendem a democracia devem apelar para a lei. Ela afirma que, sem legalidade, não há direitos, e sugere a análise do cidadão comum nesse momento. "Analisar a si mesmo levaria o cidadão a cair em um processo de profunda vergonha e mal-estar. Esse indivíduo acaba se lançando em um processo de julgar o outro, vide o caso da corrupção no Brasil. Aliás, essa história de golpe, esse senso do impeachment, se alicerça em uma propaganda contra a corrupção e é para convencer o cidadão mediano de que ele é melhor do que aquele que o governa."

"Muitos não sabem diferenciar o processo de impeachment da Operação Lava Jato. Existe muita confusão conceitual típica de um país que não teve educação política, onde muitos são manipulados pelos meios de comunicação hegemônicos", acrescenta.

Por outro lado, a filósofa vê a mídia alternativa como ponto positivo. Ela diz que ficou chocada com o fato de o jornalista Pio Redondo perder três dentes após ser agredido por manifestantes que acampam em frente ao prédio da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e abre uma reflexão sobre esse tipo de violência.

"Desculpa falar assim, mas quando a gente quer que o cachorro entre em uma briga devemos incitar muito esse cão para que fique irritado. Talvez as pessoas estejam sendo maltratadas pelos próprios organizadores do golpe. Eu acho que todos os fascistas e golpistas que estão se manifestando de maneira agressiva, precisam de ajuda psiquiátrica e pedagógica. Ali não há gente normal que sabe o que está acontecendo com a política brasileira."

Marcia Tiburi diz que os fascistas são resultados de uma produção, já que o fascismo não é natural das pessoas, mas fomentado, principalmente pela tevê, num processo de vários anos. "Para implantar o fascismo, a gente não pode criar um cenário simples e tranquilo, mas um cenário furioso com o discurso do ódio, incitando as pessoas a odiarem os diferentes. Hoje, o cidadão comum, quando encontra alguém que ele não gosta, nós devemos perguntar de onde vem esse ódio, porque não é algo das pessoas. Quem ensina as pessoas a odiar são as instituições."

Ouça: https://soundcloud.com/redebrasilatual/estamos-vivendo-espetacularizacao-fascista-onde-midia-e-judiciario-estao-apodrecidos-diz-tiburi 

''Devemos dizer não ao modelo baseado no capital e na produção.'' O discurso do Papa Francisco em Turim

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Terça, 23 de junho de 2015

''Devemos dizer não ao modelo baseado no capital e na produção.'' O discurso do Papa Francisco em Turim

Publicamos abaixo amplos trechos do discurso do Papa Francisco aos desempregados, trabalhadores e empresários proferidos nesse domingo, em Turim, na Itália.

O texto foi publicado no jornal La Stampa, 22-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Saúdo a todos vocês, trabalhadores, empresários, autoridades, jovens e famílias presentes neste encontro e lhes agradeço pelos seus discursos, do qual surge o senso de responsabilidade diante dos problemas causados pela crise econômica e por terem testemunhado que a fé no Senhor e a unidade da família lhes são de grande ajuda e apoio.

A minha visita a Turim inicia com vocês. E, acima de tudo, expresso a minha proximidade aos jovens desempregados, aos beneficiários e às pessoas em trabalho precário; mas também aos empresários, aos artesãos e a todos os trabalhadores dos vários setores, em particular aos que sofrem mais para seguir em frente.

O trabalho não é necessário apenas para a economia, mas para a pessoa humana, para a sua dignidade, para a sua cidadania e também para a inclusão social. Turim é historicamente um polo de atração do trabalho, mas hoje está fortemente afetada pela crise: o trabalho falta, aumentaram as desigualdades econômicas e sociais, muitas pessoas empobreceram e têm problemas com a casa, a saúde, a educação e outros bens primários.

A imigração aumenta a competição, mas os imigrantes não devem ser culpabilizados, porque eles são vítimas da iniquidade, dessa economia que descarta e das guerras. Faz chorar ver o espetáculo destes dias, em que seres humanos são tratados como mercadorias!

Nessa situação, somos chamados a reafirmar o "não" a uma economia do descarte, que pede para nos resignarmos à exclusão daqueles que vivem em pobreza absoluta – em Turim, cerca de um décimo da população. Excluem-se as crianças (natalidade zero!), excluem-se os idosos e agora excluem-se os jovens (mais de 40% de jovens desempregados)! Quem não produz é excluído, do modo "usa e joga fora".

Somos chamados a reafirmar o "não" à idolatria do dinheiro, que leva a entrar a todo o custo no número dos poucos que, apesar da crise, enriquecem, sem cuidar dos muitos que empobrecem, às vezes até a fome.

Somos chamados a dizer "não" à corrupção, tão difundida que parece ser uma atitude, um comportamento normal. Mas não em palavras, com os fatos. "Não" aos conluios mafiosos, às fraudes, aos subornos e coisas desse tipo.

E só assim, unindo as forças, podemos dizer "não" à iniquidade que gera violência. Dom Bosco nos ensina que o melhor método é o preventivo: o conflito social também deve ser evitado, e isso se faz com a justiça.

Nessa situação, que não é só turinense, italiana, é global e complexa, não se pode apenas esperar a "retomada" – "esperemos a retomada...". O trabalho é fundamental – a Constituição italiana declara isso desde o início –, e é necessário que a sociedade inteira, em todas as suas componentes, colabore para que ele exista para todos e seja um trabalho digno do homem e da mulher. Isso requer um modelo econômico que não seja organizado em função do capital e da produção, mas em função do bem comum.

E, a propósito das mulheres – você (a trabalhadora que havia discursado) falou disso –, os seus direitos devem ser protegidos com força, porque as mulheres, que também carregam o maior peso no cuidado da casa, dos filhos e dos idosos, ainda são discriminadas, também no trabalho.

É um desafio muito comprometedor, que deve ser enfrentado com solidariedade e olhar amplo. E Turim é chamada a ser, mais uma vez, protagonista de uma nova era de desenvolvimento econômico e social, com a sua tradição manufatureira e artesanal – pensemos, no relato bíblico, que Deus fez justamente o artesão... Vocês são chamados a isto: manufatureira e artesanal – e, ao mesmo tempo, com a pesquisa e a inovação.

Por isso, é preciso investir com coragem na formação, tentando inverter a tendência que viu cair nos últimos tempos o nível médio de instrução e muitos jovens abandonarem a escola. Você (ainda a trabalhadora) ia para a escola à noite, para poder ir em frente...

Hoje, eu gostaria de unir a minha voz à de muitos trabalhadores e empresários para pedir que possa ser implementado também um "pacto social e geracional". [...]

Gostei muito que vocês três falaram da família, dos filhos e dos avós. Não se esqueçam dessa riqueza! Os filhos são a promessa a ser levada adiante: esse trabalho que vocês assinalaram, que vocês receberam dos seus antepassados. E os idosos são a riqueza da memória.

Uma crise não pode ser superada, nós não podemos sair da crise sem os jovens, os meninos, os filhos e os avós. Força para o futuro e memória do passado que nos indica aonde se deve ir. Não ignorem isso, por favor. Os filhos e os avós são a riqueza e a promessa de um povo.

Em Turim e no seu território, ainda existem notáveis potencialidades para se investir para a criação de trabalho: a assistência é necessária, mas não basta: é preciso promoção, que regenere a confiança no futuro. Aqui estão algumas coisas principais que eu gostaria de lhes dizer.

Acrescento uma palavra que eu não gostaria que fosse retórica, por favor: coragem! Isso não significa: paciência, resignem-se. Não, não, não significa isso. Mas, ao contrário, significa: ousem, sejam corajosos, vão em frente, sejam criativos, sejam "artesãos" todos os dias, artesãos do futuro! Com a força daquela esperança que o Senhor nos dá e nunca desilude. Mas que também precisa do nosso trabalho.

Por isso, eu rezo e acompanho vocês com todo o coração. O Senhor abençoe a todos vocês, e Nossa Senhora os proteja.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/543822-devemos-dizer-nao-ao-modelo-baseado-no-capital-e-na-producao-o-discurso-do-papa-francisco-em-turim


Compreender a pobreza. Artigo de Gustavo Gutiérrez

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Terça, 26 de abril de 2016

Compreender a pobreza. Artigo de Gustavo Gutiérrez

"Hoje – e este hoje já faz um bom tempo – a desumanidade e injustiça da pobreza, a ignorância de suas causas e a percepção de sua complexidade, extensão e profundidade, tenhamos ou não uma experiência direta dela, não pode ser desculpada. É um conhecimento que constitui uma pauta importante para apreciar a qualidade – e a eficácia – humana e cristã da solidariedade com o pobre", escreve o teólogo dominicano peruano Gustavo Gutiérrez, em fragmento de um artigo escrito para um livro em homenagem a Aloysius PierisEncounter with the Word (Sri Lanka,The Ecumenical Institute for Study and Dialogue), e publicado por Reflexión y Liberación, 22-04-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A pobreza é uma realidade multifacetada, desumana e injusta: consequência, sobretudo, da forma como se pensa e se organiza a vida em sociedade.

Um fato complexo

A pobreza é um fato complexo. Não se limita, portanto, sem que isto signifique negar sua importância, à vertente econômica. A realidade de países plurirraciais e pluriculturais, assim como são boa parte dos latino-americanos, o Peru entre eles, colocou-nos rápido e diretamente diante dessa diversidade. Visão reforçada pela complexa compreensão que a Escritura, nos dois testamentos, tem dos pobres: os que mendigam para viver, as ovelhas sem pastor, os ignorantes da Lei, aqueles que são chamados "os malditos" no Evangelho de João (7, 49), as mulheres, as crianças, os estrangeiros, os pecadores públicos, os enfermos de males graves.

Presente desde um início, como problema e como enfoque, esta complexidade (realidade que hoje as agências internacionais começaram a destacar) foi aprofundada pela reflexão teológica latino-americana, acompanhando diversas linhas, nos anos seguintes. Precisamente, a consciência dessa multidimensionalidade levou às recentes expressões de 'não pessoa' e de 'insignificante' para nos referir aos pobres. Com elas, desejava-se enfatizar o que todos os pobres possuem em comum: a ausência do reconhecimento de sua dignidade humana e de sua condição de filhas e filhos de Deus, seja por razões econômicas, como também raciais, de gênero, culturais, religiosas ou outras.

Condições humanas, estas últimas, que a mentalidade dominante de nossas sociedades não valoriza, criando uma situação desigual e injusta.

Injustiça, não infortúnio

A pobreza não é uma fatalidade, é uma condição. Não é um infortúnio, é uma injustiça. É resultado de estruturas sociais e de categorias mentais e culturais. Está relacionada ao modo como a sociedade foi construída, em suas diversas manifestações. É fruto de mãos humanas: estruturas econômicas e atavismos sociais, preconceitos raciais, culturais, de gênero e religiosos acumulados ao longo da história, interesses econômicos cada vez mais ambiciosos; portanto, sua abolição também está em nossas mãos.

Atualmente, dispomos dos instrumentos – sujeitos ao exame crítico de rigor – que permitem conhecer melhor os mecanismos econômico-sociais e as categorias em jogo. Analisar essas causas é uma exigência de honestidade, e, para dizer a verdade, o caminho obrigatório, caso queiramos realmente superar um estado de coisas injusto e desumano. Ponto de vista que – sem esquecer que na pobreza dos povos intervém fatores variados – revela o papel que a responsabilidade coletiva possui neste assunto e, em primeiro lugar, a daqueles que possuem maior poder na sociedade.

Reconhecer que a pobreza não é um fato inelutável, que tem causas humanas e que é uma realidade complexa, leva a repensar as formas clássicas de atender a condição de necessidade na qual se encontram os pobres e insignificantes. A ajuda direta e imediata a quem vive uma situação de necessidade e injustiça conserva seu sentido, mas deve ser reorientada e, ao mesmo tempo, ir além: eliminar o que dá lugar a esse estado de coisas.

Apesar da evidência do assunto, não se pode dizer, no entanto, que esta perspectiva estrutural tenha se tornado uma opinião generalizada no mundo de hoje, nem tampouco em ambientes cristãos. Falar de causas da pobreza faz ver a delicadeza e, na verdade, a dimensão de conflito do problema, razão pela qual muitos buscam evitá-las.

Uma situação que se agrava

Ao anterior, acrescentam-se outros elementos da nossa atual percepção da pobreza que devem ser considerados

Um deles é a dimensão planetária da situação em que se encontra a grande maioria da população mundial. Isto vale para o conjunto do que entendemos por pobreza, ainda que muitas vezes os estudos a esse respeito insistam muito mais em sua vertente econômica, sem dúvida a mais fácil de medir. Por longo tempo, as pessoas só conheceram a pobreza que tinham perto, em sua cidade ou, no máximo, em seu país. Sua sensibilidade, quando existia, limitava-se, explica-se, ao que tinham diante dos olhos e, literalmente, ao alcance da mão (para dar uma ajuda direta, por exemplo). As condições de vida de então não permitiam ter um entendimento suficiente da extensão desse estado de coisas. Isto mudou, qualitativamente, com a facilidade de informação que se foi adquirindo. O que antes era distante e remoto, tornou-se próximo e cotidiano. Além disso, os dados e os estudos sobre a pobreza massiva, realizados por inúmeras organizações em nossos dias, multiplicam-se e traçam seus métodos de investigação. Não podem ser ignorados.

Outro traço que também modificou nossa aproximação com a pobreza é seu aprofundamento e o aumento da distância entre as nações e pessoas mais ricas e as mais pobres. Isto, na avaliação de certos economistas, está levando ao que se qualificou de 'neodualismo': a população mundial se coloca cada vez mais nos dois extremos do espectro econômico e social. Uma das linhas divisórias é o conhecimento científico e técnico que se constituiu o eixo mais importante de acumulação na atividade econômica e cujos avanços aceleraram a já desenfreada exploração – e depredação – dos recursos naturais do planeta, que são um patrimônio comum da humanidade. Estes fatores aumentaram a distância que mencionávamos.

Não obstante, o assunto não se limita ao aspecto econômico da pobreza e à insignificância. No espaço criado por essa disparidade crescente, intervêm e se entrecruzam os elementos mencionados anteriormente: os que vem do terreno econômico, por um lado, com os referentes às questões de ordem cultural, racial e de gênero, por outro. Este último levou a se falar, com razão, de uma feminização da pobreza. Com efeito, as mulheres constituem o setor mais atingido pela pobreza e a discriminação, principalmente se pertencem a culturas ou etnias desprezadas. Embora a questão agora tenha alcançado proporções escandalosas, o processo de acentuação dessa distância estava em marcha há décadas, o que explica o alvoroço que já provocava, desde então.

Hoje – e este hoje já faz um bom tempo – a desumanidade e injustiça da pobreza, a ignorância de suas causas e a percepção de sua complexidade, extensão e profundidade, tenhamos ou não uma experiência direta dela, não pode ser desculpada. É um conhecimento que constitui uma pauta importante para apreciar a qualidade – e a eficácia – humana e cristã da solidariedade com o pobre.


http://www.ihu.unisinos.br/noticias/554111-compreender-a-pobreza-artigo-de-gustavo-gutierrez#.Vx_tpwsnft8.facebook


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Carta Aberta às Comunidades Sobre a Atual Conjuntura Política do Brasil

Carta Aberta às Comunidades Sobre a Atual Conjuntura Política do Brasil

"Quero ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual riacho que não seca" Am 5, 24.

Os agentes de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, reunidos, nos dias 28 de março a 02 de abril de 2016, em São Félix do Araguaia, MT, com o bispo Dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga, manifestam grande preocupação com o momento sociopolítico que vivenciamos atualmente.

Sabemos que uma crise econômica, que se iniciou de forma concreta em 2008, está afetando fortemente o sistema capitalista e tem provocado, por parte de grandes empresas e países ricos como os Estados Unidos, uma investida violenta em diversos países em desenvolvimento. Tais países são vistos como fornecedores de matéria prima e mão de obra barata para alimentar o luxo e o consumo dos ricos de fora e da elite interna que tem se tornado cada vez mais rica e opulenta.

Povos e comunidades são desconsiderados e expropriados de seus direitos para abrirem espaços para as grandes empresas. No Brasil, a conjuntura atual é caracterizada por uma profunda crise política institucional, que ameaça as conquistas democráticas, rompendo com o pacto social realizado nas últimas décadas, bem como com o respeito aos valores humanos básicos.

Como Igreja, apoiamos o combate às injustiças e a corrupção e apelamos ao Ministério Público e ao Judiciário que ajam com isenção, rigor e imparcialidade no exercício de suas funções, punindo os responsáveis independentemente do partido a que pertençam.

O momento atual que a sociedade brasileira atravessa é delicado e exige acima de tudo uma reflexão aprofundada isenta de paixões e partidarismos. Apelamos para o bom senso dos integrantes do Congresso Nacional (Deputados e Senadores), afim de que saibam olhar a complexidade e delicadeza desse momento. Não podemos retroceder nas conquistas democráticas alcançadas.

Repudiamos a tentativa de desestabilização de um Governo democraticamente eleito, sob o risco de conduzir o País ao caos generalizado. Grupos conservadores, respaldados pela grande mídia, passam uma visão superficial e manipulada do grave momento que o país vive.

Acreditamos que a sociedade brasileira, civil e organizada, esteja à altura de compreender a gravidade do momento e dizer NÃO a qualquer tentativa de golpe.

O Povo já superou graves crises institucionais, saberá manter a serenidade e de forma pacífica fará valer o Direito e a Justiça.

São Félix do Araguaia – MT, 02 de Abril de 2016.

Entrevista :: Espaço Público :: João Pedro Stedile

"O STF é responsável pela continuidade do Cunha. Deveriam ter agilidade de acelerar esse processo e julgá-lo, porque não há outra instância para isso, e ele manipula até a Comissão de Ética", avaliou João Pedro Stedile, do MST. 

Assista ao no ‪#‎EspaçoPúblico‬ completo: http://bit.ly/1QseW0p



Espaço Público :: João Pedro Stedile



Entrevista de 19/04, do Espaço Público, com o gaúcho João Pedro Stédile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), formado em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. Stedile já dedicou 37 dos seus 62 anos de vida à luta pela reforma agrária.  O líder do MST, filho de pequenos agricultores italianos, foi um dos articuladores do encontro de movimentos sociais com o papa Francisco, menos de um ano atrás. "Assim como o capitalismo tem Obama, nós temos o papa", declarou na ocasião, acrescentando: "O Francisco tem assumido esse papel de liderança, graças a Deus. Ele tem acertado todas".

Transmitido pela TV Brasil toda terça-feira, às 23h, o programa Espaço Público é apresentado pelo jornalista Paulo Moreira Leite, com a participação do também jornalista Florestan Fernandes Júnior. Na entrevista com João Pedro Stedile, a mesa foi composta, ainda, pela repórter Júlia Duailibi, da revista Piauí.