domingo, 20 de maio de 2012

3ª Etapa da Escola de Formação Fé, Política e Trabalho 2012.ano9



Com o objetivo de estudar a história da formação dos partidos políticos, compreendendo melhor a cultura política do povo brasileiro realizamos nos dias 19 e 20 de maio a terceira etapa da Escola de Fé, Política e Trabalho em sua nona edição. Escola que é coordenada pela Cáritas Diocesana de Caxias do Sul com o apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
 
O tema desta etapa foi Projetos Políticos para o Brasil e o nivelamento programático dos partidos políticos e contou com a assessoria do professor Dr. César Sanson da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Utilizando-se do conceito da Grécia antiga onde a essência da política é o bem comum e que exige virtudes (ética) de coragem, transparência, verdade, honestidade e justiça colocadas em favor do coletivo melhorando a condição de vida dos mais necessitados fomos estabelecendo relações com a vida política do Brasil a partir do período de 1930 em que iniciamos o processo de industrialização com criação da CSN, CRVD, Petrobrás e outras grandes empresas estatais além da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), passando por JK – cinqüenta anos em cinco- e a construção de Brasília, o Golpe Militar de 1964 com o milagre econômico da década de 1970 e o surgimento dos movimentos sociais. 

Revisitamos o governo Sarney, Collor com o modelo de inserção competitiva no mercado internacional através das normas regidas pelo neoliberalismo que foi incrementado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso com a venda de estatais e o governo Lula através do projeto neodesenvolvementista que busca uma mistura da era Vargas com JK.
 
O grupo foi convidado a analisar apenas sete partidos: PT e PSDB por estarem no poder nos últimos 18 anos; DEM e PSOL por serem representativos ideologicamente no campo da direita e da esquerda; PMDB que gravita pelo poder por mais de 20 anos; PDT e PP por suas forças no Rio Grande do Sul.

A análise permite perceber o nivelamento programático fruto da nossa ainda jovem democracia de caráter representativa, onde algumas posições sobre soberania e participação do Estado na vida econômica e social do país os diferenciam.

Vivemos um momento difícil em termos de credibilidade dos partidos políticos e tendo próximo de trinta partidos oficialmente registrados na Justiça Eleitoral percebe-se que na sua maioria são partidos criados para atender necessidades pessoais, longe das vontades populares, com comportamento ambíguo nas diversas regiões do país: coligando com alguns em certos estados e declarando-se inimigos ferozes em outros.

Fica para nós a provocação inicial feita pelo professor César ao trazer o poema de Bertolt Brecht, o Analfabeto Político:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

 
A próxima etapa acontece nos dias 16 e 17 de junho e os temas serão: ‘Da alienação à conscientização para uma prática transformadora da realidade’ com o professor Dr. Pedrinho Guareschi - UFRGS e ‘O projeto de uma ética planetária’ com o professor Dr. Luiz Carlos Susin – PUC-RS.

Texto: José Antônio Somensi (Zeca)
Fotos: Lisiane Zago, João Dorlan, Fernanda Seibel

sábado, 19 de maio de 2012

Da ética e da política

Artigo de Renato Janine Ribeiro,

professor titular de ética e filosofia política na

Universidade de São Paulo - Valor, 12-03-2012.

 

Eis o artigo.

 

No ano que vem, "O Príncipe", de Maquiavel, completará meio milênio de sua primeira difusão em manuscrito. Nesses cinco séculos, a questão mais importante sobre a ética tem sido: como acontece que ela não seja suficiente? Quais são seus limites? O que fazer quando a ética não nos orienta sobre a ação que podemos julgar correta?

 

Maquiavel e os utilitaristas provavelmente são quem mais elaborou essa questão, mas no século XX ela recebeu tratamento sofisticado, entre outros por pensadores do quilate do sociólogo Max Weber ou dos filósofos Merleau-Ponty e Isaiah Berlin. Nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso citava Weber em profusão, quando discutia as fronteiras entre sua atuação como cientista social e como político. Num caso se procura conhecer; no outro, agir. Weber também servia a FHC para explicar por que este não fez tudo o que prometeu ou quis. O presidente sociólogo assim popularizou, entre nós, termos como ética de princípios e ética da responsabilidade.

 

Tendemos todos a concordar quanto a alguns preceitos éticos fundamentais: não matar, não furtar, em suma, não prejudicar o outro. Mas podemos divergir sobre o que eles significam. Por exemplo, "não matar" é apenas não tirar a vida de outra pessoa? Ou podemos matar outras pessoas por omissão, se não acudirmos alguém ameaçado por um agressor ou não socorrermos um faminto? Num caso, para eu ser ético, basta não fazer mal algum. Não preciso fazer o bem. É suficiente não fazer o mal. Não fiz nada de errado. Mas desta maneira terei feito o que é certo? Talvez não. Porque a ética é exigente. Nunca serei ético comodamente. A ética me incomodará. A ética exigirá que eu lute contra a fome. E quando começo a pensar desse modo, não paro mais. Para ser ético, precisarei dar comida a quem está esfomeado? E bastará isso, se eu não batalhar pela adoção de políticas contra a fome? E essas, serão eficazes ou contraproducentes? Esse é um ponto essencial da discussão ética. Ela é interminável. Não visa a nos confortar. Está aí para nos questionar. Se não o fizer, será falsa. Uma ética confortável é apenas um álibi.

 

Mas a discussão importante sobre a ética não é apenas sobre o que ela diz ou orienta, e sim sobre o que ela não pode dizer nem orientar. Há pelo menos cinco séculos que os observadores mais atilados da condição humana sabem que muito se faz à margem, ou mesmo contra, a ética. Maquiavel, tão mal entendido, percebeu que a ação política obedece a uma lógica diferente da moral, digamos, privada ou cristã. O pensador liberal Isaiah Berlin diz: Maquiavel não é anti-ético. Ao contrário, ele é um filósofo da ética: uma ética da cidade, da política, uma ética da vida neste mundo. Berlin a considera uma ética pagã, greco-romana. E por isso, em seu prefácio à edição brasileira d'O Príncipe, FHC apresenta Maquiavel como um cientista político de excelente qualidade, não como quem acharia que os fins justificariam os meios (o que, por sinal, ele nunca disse). Dizer as coisas como são, não como fantasiamos ou desejamos que seriam: isso é lucidez.

 

O que a ética não pode dizer é, exatamente, o que é mais difícil na vida social e política. Os dez mandamentos cristãos, ou outros princípios éticos, podem orientar em boa medida a vida privada de muita gente. Mas, quando passamos à vida coletiva e em especial quando o demônio do poder entra em cena, eles não dão conta. Os utilitaristas, como Jeremy Bentham, trataram disso com franqueza brutal. Exemplo célebre: seria justo matar uma pessoa para salvar cinco? Na falta de critérios absolutos, revelados por uma suposta divindade, cada vida vale o mesmo que outra. Cinco vidas valem mais que uma. Então, se para o Brasil prosperar é preciso avançar o sinal ético na privatização ou na obtenção de maioria no Congresso (por hipótese), o preço é nojento, mas pequeno. O bem comum assim causado supera de longe os danos.

 

Quais os problemas, nessa questão? São dois. Nunca se tem certeza de que o que chamamos de bem comum é, realmente, bom. Não há consenso a respeito. Uns aplaudem a privatização, outros não; o mesmo quanto aos sucessos do governo Lula. Os males causados podem ser tangíveis, reais. Mas há divergência sobre o bem comum que terão produzido. Este é o primeiro problema. Na política, não há certezas. Causamos males, indubitáveis, em troca de um bem maior, mas inseguro. Pagamos o preço, mas ganhamos algo em troca? Não sabemos.

 

O segundo problema é mais grave. É que na política se age como descrevi, mas isso não se discute. Um silêncio terrível paira sobre a generalização da corrupção - no mundo todo. Qualquer observador atento sabe que, na era do marketing, mais e mais dinheiro é preciso para as campanhas eleitorais. Papel vem de árvores; dinheiro, não. Vem de cofres públicos. É difícil um partido fazer sua campanha sem tais meios heterodoxos. Essa corrupção deve ser generalizada, porque todos os partidos necessitam de fartos recursos para suas campanhas. Mas é fácil usar esse fato seletivamente. Acuso o partido de que não gosto. É muito provável que o meu tenha agido da mesma forma, mas sobre isso me calo. Daí que a ética vire arma vil num debate que esconde sua real natureza política. Mas essa realidade sempre existiu; e a questão foi formulada há cinco séculos, por Maquiavel. O que fazer quando a ética usual, a do não-matarás, não basta para nos orientar? Seria melhor discutir isso, expor isso, quem sabe respondê-lo, do que manipular a ética e enganar os ingênuos. Em 2013, "O Príncipe" completa 500 anos. Quem sabe ser honesto e abrir o jogo seria um bom modo de celebrar a data?

SOBRE POLÍTICA E JARDINAGEM

Artigo de Rubem Alves - educador, escritor e psicanalista,

é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas

 

 

Política – a mais nobre vocação

 

"De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim "vocare", quer dizer "chamado". Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um "fazer". No lugar desse "fazer" o vocacionado quer "fazer amor" com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.

 

"Política" vem de "polis", cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos os moradores da cidade.

 

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades; sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu "o que é política?", ele nos responderia: "A arte da jardinagem aplicada às coisas públicas".

 

 

Político – um apaixonado por jardins

 

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se a sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

 

Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor, mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade.

 

A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.

 

 

Vocação é diferente de profissão

 

Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô. Todas as vocações podem ser transformadas em profissões. O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumentem o deserto e o sofrimento.

 

 

Sou político por profissão ou vocação?

 

Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, questionado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: "Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade. Ao contrário dos "legítimos" políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem".

 

Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las. Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de ser confundidos com gigolôs e de ter de conviver com gigolôs.

 

 

Escrevo para você jovem!

 

Escrevo para você, jovem, para seduzi-lo à vocação política. Talvez haja um jardineiro adormecido dentro de você. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas são legítimas, se forem vocação. Mas todas elas são afunilantes: vão colocá-lo num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?

 

 

'Construir' jardins para todos

 

Acabamos de celebrar os 500 anos do Descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros, mas lenhadores e madeireiros. Foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim, para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde poucos encontram vida e prazer.

 

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, em vez de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores em cuja sombra nunca se assentariam".

 

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O Analfabeto Político

Bertolt Brecht
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=2RwJemF_9tY

3° etapa da Escola de Formação Fé, Política e Trabalho

dia 19 e 20 de maio
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3° etapa da Escola de Formação Fé, Política e Trabalho 2012.ano9

 

Nos dias 19 e 20 de maio de 2012 (sábado e domingo), será realizada a terceira etapa

do curso da Escola de Formação Fé, Política e Trabalho 2012.ano9 (Unisinos + Diocese de Caxias do Sul + Cáritas Caxias).

 

Programa

3 etapa

19 e 20 de maio

Projetos Políticos para o Brasil e o nivelamento programático dos partidos políticos. O processo eleitoral e a disputa pelo poder. A política partidária X sociedade. A reforma eleitoral. Análise de conjuntura.
Prof. Dr. Cesar Sanson

 

domingo, 22 de abril de 2012

Segunda Etapa da Escola de Fé, Política e Trabalho 2012 – 9ª edição


É fundamental conhecer o nosso passado e assim compreendendo os fatos  podemos entender o momento que vivemos e raciocinar no que pode vir acontecer.
 
Pensando desta forma é que a Escola de Fé, Política e Trabalho da Diocese de Caxias do Sul, que é coordenada pela Cáritas e com apoio do Instituto Humanitas (IHU), apresentou como tema para esta segunda etapa “Visão histórica dos projetos de nação brasileira a partir de 1930” e contou com a assessoria da professora Dra. Eloísa Capovilla da Luz Ramos – Unisinos.  
Optamos começar por 1930 com a chegada de Getúlio Vargas ao poder central porque com ele acontece uma ruptura no modelo econômico e político no país

Não mais a economia exclusivamente voltada para agricultura e pecuária e politicamente centrada no eixo São Paulo-Minas Gerais, chamada política café com leite, mas agora com uma visão de industrialização de bens de consumo (geladeiras, ventiladores...) geração de empregos urbanos, empresas de base.  Surgem grandes companhias como a Petrobras, Companhia Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional e com elas as novas leis trabalhistas. Cresce a consciência de construir uma nação, fortalecendo partidos, não mais regionais, mas com abrangência nacional, conquista do voto feminino. 

Depois de Getúlio Vargas assume Juscelino Kubistheck que atrai as montadoras de veículos para o país, que por sua vez necessita de estradas para seus caros rodarem, constrói Brasília.

Durante o governo Jânio Quadros/João Goulart acontece o golpe militar, instala-se uma ditadura e mesmo com um processo desenvolvimentista para o país com a construção da Itaipu, Transamazônica, avanços nos territórios para agricultura percebe-se que este grupo não tem o mesmo projeto de nação dos governos anteriores.  

Calam-se vezes, seja pela censura, seja pela morte, aprisiona-se a jovem democracia, fecha-se o Congresso, governa-se de coturno seguindo a cartilha estabelecida pelos Estados Unidos.

Passado este período temos o processo de redemocratização, que ainda estamos aprendendo e construindo, chegando a este novo momento com moeda e economia estabilizada, investimento em educação e luta para diminuir as enormes desigualdades sociais que temos em nosso país.

A medida que avançávamos na análise, éramos convidados a perceber como os governos e suas ações interferiam na cultura – música, teatro, cinema, e no comportamento da imprensa. Tudo com o peculiar bom humor da professora Eloísa.











A próxima etapa acontece nos dias 19 e 20 de maio e o tema será: “Projetos políticos para o Brasil e o nivelamento programático dos partidos políticos”. E terá como assessor o professor Dr. César Sanson, do Cepat – Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - Curitiba e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte _ UFRN.

Texto: José Antônio Somensi (Zeca) 
Fotos: Lisiane Zago e Fernanda Seibel

De Golbery a Lula: olhares sobre a redemocratização no Brasil

Eloisa Helena Capovilla da Luz Ramos – Unisinos

            RESUMO

O processo da (re)democratização brasileira foi arquitetado pelos militares entre os quais despontava a figura do General Golbery do Couto e Silva, que também havia sido um dos artífices da implementação do autoritarismo no país, 21 anos antes. Figura controvertida da história política brasileira contemporânea, Golbery atuou nos bastidores tanto na etapa inicial do processo autoritário, quanto no traçado da política de (re)democratização, juntamente com o Presidente, General Ernesto Geisel. Neste processo,  foi secundado pela ação da sociedade civil, que à sua maneira resistiu, indo às ruas, nos anos 80 pela volta da democracia. Tais atos culminaram com a anistia e, posteriormente com a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da República, em 1984. De lá para cá, os governos e as crises se sucederam, mas o processo de (re)democratização do Brasil aparentemente está se consolidando.

            ETAPA 1 – DA ABERTURA
                       
Para além dos marcos cronológicos, porém,                                                                  o fato é que da ditadura fez-se a democracia ... (Reis: 2000, p.11).

A política não segue um desenvolvimento linear: é feita de rupturas que parecem acidentes para a inteligência organizadora do real (Rémond: 1996, p. 449). Se assim não fosse,  teríamos dificuldade em assimilar a idéia de que o processo de (re)democratização do Brasil no período pós-64 foi arquitetado pelos governos militares dos Generais Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo, tendo ainda a participação, como mentor do processo, do General Golbery do Couto e Silva, criador e primeiro diretor do Serviço Nacional de Informações (SNI). É considerando a perspectiva de que houve uma abertura política “por cima” que iniciamos a análise da volta da democracia em nosso país.
A crise econômica do Brasil, no início dos anos 1970, estava ligada, externamente, `a questão do petróleo, colocando o país numa situação econômica bastante difícil. Além disso, internamente, o governo Médici, que recém terminara, havia sido de um profundo autoritarismo, o mais pesado até então, desde 1964. Sua ação, através dos órgãos de repressão, deixara muitas marcas na população brasileira. Entre os militares, por seu turno, havia posições muito independentes, tanto sobre temáticas políticas quanto no que se referia à repressão ilimitada em nome da segurança nacional. Tais posicionamentos denotavam fratura na hierarquia e na ordem, sempre tão caras ao setor. Era mister preservar as Forças Armadas como instituição ou poder-se-ia correr o risco de inviabilizar o modelo de Estado desenhado e que vinha sendo executado pelos militares. Assim, a necessidade de modificar a estrutura do regime começava timidamente a se manifestar.
O presidente Ernesto Geisel e seu chefe do Gabinete Civil, o General Golbery do Couto e Silva eram, entre os militares, os articuladores de um projeto político mais amplo, cujo objetivo era propiciar uma maior flexibilização política ao país. Era a teoria da distensão, que naquele contexto, pretendia assegurar um afrouxamento da tensão sócio-política, no dizer de Alves (1984, p. 185). O objetivo de tal atitude, era traçar os passos que pudessem levar a uma flexibilização gradativa dos mecanismos da coerção legal, como por exemplo, acabar com o Ato Institucional n° 5 (AI- 5). No desenrolar desta ação, os atores principais da distensão política deram uma atenção especial ao sistema eleitoral, incluindo-se neste objetivo, a médio prazo, também, uma reforma partidária. Para o General Golbery, a repressão ilimitada, na busca de uma segurança absoluta, levaria, em última análise, à debilitação da segurança nacional pretendida (Alves:1984, p.186). A teoria da distensão, da forma como foi pensada, isto é, de forma lenta e gradual, pretendia, segundo seus autores,  ser uma forma de legitimação do Estado autoritário então vigente. Mas esta não era uma tarefa fácil de ser desenvolvida porque uma ala da corporação militar, a chamada “linha dura” não concordava com tal estratégia. Portanto, como afirmamos anteriormente, essa era uma posição personalizada  em alguns atores militares.
A análise do período de governo dos Generais Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo e da atuação mais intensa do General Golbery  na condução do processo de abertura política, mostrou claramente a necessidade do uso de medidas de exceção além de medidas estratégicas para alcançar os objetivos traçados, tanto por  parte dos Presidentes como de seu fiel escudeiro. Isto pode ser visto nas relações com lideranças do Exército, nas relações com a sociedade civil e também nas relações com a classe política. Que espécie de legado Figueiredo receberia de seu firme mentor? Geisel e Golbery  levaram a liberalização mais longe do que todos os analistas políticos consideravam possível desde 1974. Mas importantes poderes arbitrários permaneciam, especialmente na Lei de Segurança Nacional (Skidmore: 1988, p. 49). É preciso que se diga, a bem da verdade, que a flexibilização do regime não excluiu perseguições, torturas, atos de exceção, mortes. Apesar delas, o processo avançou, chegando ao final do período Geisel, com a revogação do AI – 5.
Já os seis anos do Governo Figueiredo caracterizaram-se pela política de “abertura” embora possam ser também caracterizados como limitadores de uma participação ampla dos setores até então excluídos do processo político. Entre os procedimentos que marcaram particularmente o primeiro ano de governo do General Figueiredo temos a anistia política, em agosto e a  reforma partidária em dezembro. Porém, houve também uma sombra de retrocesso, na linha do terrorismo anti-comunista: a bomba no Riocentro. Nesse mesmo contexto a oposição avançava, ampliando sua participação na vida política nacional. Sua meta, agora, era a eleição direta para Presidente. O processo, uma vez desencadeado, envolveu diferentes setores da sociedade civil, que assumiram um importante papel no desenrolar dos acontecimentos. A Emenda apresentada pelo Deputado Dante de Oliveira, buscando eleições diretas, não foi aprovada no Congresso. A mobilização, porém, continuou, com a rearticulação das oposições, numa campanha aberta nas principais cidades do Brasil. Milhares de pessoas acorriam aos comícios e caminhadas ao lado de líderes políticos como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Leonel Brizola e Luís Inácio Lula da Silva , além de intelectuais engajados e de representantes da Igreja, como D. Paulo Evaristo Arns. Nesse contexto, buscava-se também convencer à sociedade civil que um nome de peso nacional da oposição, que estivesse engajado na luta por mudanças, poderia concorrer no Colégio Eleitoral, - que fora criado pela ditadura -. Isso, na opinião das oposições,  poderia ser tomado como uma derrota do autoritarismo. Seria, nesse caso, matar a cobra com o seu próprio veneno.
Tendo continuado vigente a fórmula indireta para a eleição do Presidente da República, novas negociações da oposição resultaram na escolha de um candidato para concorrer à Presidência. O nome consagrado foi o do mineiro Tancredo de Almeida Neves, um político dos velhos tempos e um nome de consenso entre seus pares.
Ao mesmo tempo em que a oposição se mobilizava, dentro do quadro sucessório possível, isto é, no contexto da abertura proposta pelos militares, o grupo governista se dividia entre um candidato militar ou um candidato civil, do partido do Governo, o PDS. O grupo favorável a uma candidatura civil, vitorioso, acabou se desarticulando pois o candidato da situação, Paulo Maluf, não era um candidato de consenso. Sirlei Gedoz, analisando os discursos de lideranças parlamentares no Congresso Nacional nesse período, constatou que existiam três hipóteses que levavam tanto a situação como a oposição a adotar a saída negociada (2003, p. 234), no processo eleitoral que se anunciava. Para ela, as hipóteses eram as seguintes:

·         os interesses do próprio regime;
·         os interesses político-pessoais, como o de Tancredo Neves, que, na hipótese de eleição direta, teria que disputar a indicação dentro do partido com Ulysses Guimarães;
·         o temor, tanto da situação, como da oposição conservadora, representada pela cúpula do PMDB, que via a redemocratização apenas como restituição das prerrogativas jurídico-institucionais, sem tocar em questões fundamentais da redistribuição do poder político, por exemplo (Gedoz: 2002, p. 237).

Apesar da solução negociada, porém, a oposição capitalizou os votos dos descontentes e, dentro do próprio sistema inventado pelos militares, saiu vitoriosa.
Uma nova etapa de vida democrática estava começando – outra vez -, no Brasil. O sucesso alcançado no processo eleitoral sofreu o primeiro baque com a doença e morte do Presidente eleito. Assumiu o cargo seu vice-presidente, José Sarney, parlamentar maranhense que no período final do processo ditatorial aliou-as à oposição, rompendo com o Governo. Não era, pois, merecedor da confiança dos brasileiros.
Numa análise sucinta desta primeira fase do processo de (re)democratização brasileira, isto é, abertura para a participação da sociedade civil no processo político, é possível concluir que esta foi proposta e dirigida pelo governo, não porque houvesse naquele momento pressão da sociedade civil sobre os militares, uma vez que a luta armada havia sido vencida e esmagada, mas por quê havia uma certa consciência entre um grupo de militares, da necessidade de liberalizar o regime, sob pena de não se poder mais “salvaguardar” a integridade da instituição militar. Nessa perspectiva é que a flexibilização foi pensada e posta em prática pelos seus idealizadores, os já citados Generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel. A preocupação, em última análise, era com a corporação militar e não com a sociedade civil. Com esta, os idealizadores da abertura só buscaram costurar um pacto de governabilidade pelo alto, isto é, através de seus representantes. O jurista Hélio Bicudo diz que a escolha de Tancredo Neves, no Colégio, é apenas uma maneira de continuarmos numa democracia relativa, controlada pelas cúpulas militares, com o conformismo das cúpulas partidárias dominantes (Apud Barros:1994, p. 119). 

ETAPA 2 -  DA TRANSIÇÃO

Em primeiro lugar é preciso estabelecer qual é o tempo exato do “período de transição” que sobreveio ao fim do regime militar brasileiro. Grosso modo, os 5 anos do Governo Sarney são considerados como de transição para a verdadeira democracia, cuja pedra de toque deveria ser a eleição direta do Presidente da República. Mas isto não é consenso. Para Daniel Aarão Reis (2000), a transição começou em 1979, com o fim dos atos de exceção e aprovação da anistia. Refletindo sobre a gênese e o desenvolvimento da ditadura militar no Brasil, este autor preocupa-se também em analisar a sua extinção, já que para ele a ditadura foi redefinindo-se, transformando-se, transitando para uma democracia sob formas híbridas, mudando de pele como um camaleão muda de cores, em uma lenta metamorfose que até hoje desencadeia polêmicas a respeito de quando, efetivamente, terminou (Reis: 2000, p.11). Sua hipótese é que tal período terminou em 1988, com a nova Constituição.  O que é na realidade uma transição? É a passagem? É o caminhar? Será o espaço situado entre dois acontecimentos, já que transição pressupõe a existência de um outro lado? Ou seja, se estamos em transição é porque queremos chagar a algum “outro” lugar?  Do ponto de vista da vida política brasileira, a transição parece compreender um certo hibridismo, com partes do que deixou de existir, e outras partes novas. Não é mais o passado, mas ainda não chegou no futuro.
O acontecimento, e com mais razão ainda, a crise, que é um paroxismo do acontecimento, tem a característica de ser irreversível: eles modificam irremediavelmente o curso das coisas, diz René Rémond (1996, p. 449). Foi o que ocorreu no episódio da eleição de Tancredo Neves, em 1984/85. Diante da realidade da morte do presidente eleito, da efetivação de seu vice-presidente, José Sarney, no comando do Governo e tendo presente que o período caracterizava-se como de transição, pois os mecanismos de salvaguarda, resquícios do passado recente, permaneciam sobre a cabeça dos políticos que detinham o comando do país, o chefe da Nação inicia seu trabalho enfrentando uma crise econômico-financeira de grandes proporções. A inflação galopante, mudava o valor da moeda todos os dias. Para combatê-la o Presidente anunciou, no final de fevereiro de 1986, um novo plano econômico: o Plano Cruzado, cujo sucesso foi efêmero – de março a outubro - . A nova medida trouxe em seu bojo a participação popular – os fiscais do Sarney – e uma bem urdida manobra política que garantiu a vitória do PMDB nas eleições de outubro/1986.
A tentativa de acerto econômico/financeiro, o “calcanhar de Aquiles” do Brasil, condição sine qua non para a arrancada rumo ao desenvolvimento, tem sido a tônica dos governos brasileiros, desde então. Analisando a administração da transição, isto é, a administração Sarney, verificamos  que além da tentativa de “matar a inflação com um só tiro” realizada com o Plano Cruzado, houve outras reformas econômicas de menor porte, que foram realizadas sem sucesso. É, portanto, um período de crise. Se esperava, ingenuamente, diz José Murilo de Carvalho, que a democratização fosse resolver com rapidez as dificuldades econômicas. Pelo contrário, ao invés de diminuir, os problemas aumentaram ( 1995, p.162).
Mesmo assim, o Congresso Nacional foi convocado, os Constituintes se reuniram e, em 1988, promulgaram a atual Constituição. Estes dois episódios, Plano Cruzado e Constituição de 1988, foram, em nossa opinião, os  que marcaram positivamente o Governo Sarney.
O texto constitucional aprovado trazia várias inovações. Era também a prova irrefutável da volta da democracia, entendida aqui como a aprovação do texto constitucional. O que se viu, posteriormente, é que  não basta fazer um texto constitucional. É preciso também regulamentá-lo. E isto, em grande parte está, ainda hoje, por fazer. Uma Constituição que há 16 anos não está regulamentada é um arremedo de Lei maior. Como fica, então a democracia, neste contexto? Apesar das dificuldades ligadas à regulamentação constitucional, consideramos que após a promulgação da Constituição um novo momento sócio-político se inaugurava: o da democracia plena, que deveria se tornar realidade com a próxima eleição para Presidente da República. A possibilidade do pleno exercício da cidadania, animava os brasileiros.

ETAPA 3 – DA DEMOCRACIA

Os anos 1990 são inaugurados no Brasil com um novo presidente que fora eleito pelo voto direto da maioria dos brasileiros em turno e returno. Era Fernando Collor de Mello. Sua imagem, bem administrada pela mídia, o projetava como jovem, esportista, dinâmico... e depois, corrupto. Isso lhe custou a Presidência cerca de dois anos após o início de seu mandato e, mais do que isto, lhe trouxe uma impopularidade fenomenal. Todos o rejeitavam, agora, inclusive a mídia que tanto o incensara. Talvez convenha notar que, mesmo que Collor fosse absolvido e reintegrado no cargo, ele estaria desmoralizado. Seu governo acabou em farsa e não em tragédia (Ribeiro:1994, p. 38). Outra vez, o Vice-Presidente, o mineiro Itamar Franco, teve que assumir o mandato presidencial para completá-lo. A nova República parece que não avançava nas questões democráticas. Ou será que avançava? Aqui a reflexão tem que ser embasada nos pressupostos da democracia. Definição difícil dada a pluralidade das interpretações que suscita, a teoria democrática está embasada em distintas tradições históricas, cuja origem remonta à Grécia e ao pensamento do governo do povo. Em seus desdobramentos históricos temos encontrado em diferentes autores que República, liberdade e democracia são, mais do que simples conceitos justapostos, idéias que estão imbricadas, fundidas numa  busca quase utópica.
Décio Freitas, historiador Rio-grandense recentemente falecido, aponta para o fato da democracia não ser sinônimo de desenvolvimento ou de assegurar a estabilidade política. Para ele, a democracia é uma bela idéia, mas a realidade é esquálida e intratável (in ZH: 2003, p. 2), podendo, em última instância, ser reduzida ao cumprimento da liturgia do voto.
Para Renato Janine Ribeiro, a democracia expressa o desejo por mais. Bem orientado, esse desejo se converte em direito à igualdade de bens, de oportunidades ou perante a lei (2001, p. 77).
Transpondo essas idéias para a análise do período de transição para a democracia no Brasil, é possível perceber quais as idéias que estão circulando: aquelas onde a liberdade de participação política e melhores condições de cidadania permitam a garantia de uma democracia plena. Aliada à participação política estava ainda embutida a esperança na solução dos problemas econômicos do Brasil. Neste contexto o que constatamos foi que, apesar da permanência da crise econômico-financeira, os partidos políticos estavam ocupando seus espaços, embora o fizessem dentro de um modelo bastante conservador.
Quanto à participação popular, foi importante sua presença no episódio “fora Collor”. Pode-se dizer que a sociedade civil tomou uma decisão: não lhe servia mais o Presidente; havia desmerecido sua confiança. Se, por um lado a população assumiu um papel ativo no episódio, o que é louvável, por outro foi tomada por uma profunda descrença nas instituições, uma profunda desilusão. Wanderley Guilherme dos Santos expressou assim esse desencanto:
                                                                                                                                                                       Houve um presidente impedido por ser indigno, houve um plebiscito que falhou em produzir o que dele esperavam (...), mas legou-nos parte de uma elite derrotada, ressentida e rancorosa; descobriu-se uma sementeira parlamentar de “anões” meliantes; a inflação saracoteia e os oligopólios desconhecem a existência das autoridades governamentais; a capacidade operacional do Estado é cadente – mas o país resiste. Ou melhor, as instituições políticas contrapõem surpreendente solidez a todas as forças desestabilizadoras, a todos os presságios que mais parecem atrações fatais (Santos: 1994, VII).

Um outro componente pode ser agregado ao desencantamento já apontado: o que levou em conta que a população brasileira desacreditou da classe política. Os escândalos cada vez mais visíveis não davam tréguas e os principais jornais e revistas assumiram o papel de “caça-ladrões” da vida pública nacional. Embora chocados com o rumo da política e dos políticos brasileiros, o que escapava ao senso comum era a possibilidade da vivência da liberdade e da democracia onde, o direito de opinião e o exercício da liberdade de falar voltavam a ocupar lugar de destaque. Por isso, o período militar foi muitas vezes re(s)significado já que parecia, aos olhos desses homens e mulheres brasileiros, que o tempo anterior, da ditadura, havia sido melhor, porque embora sem liberdade, havia sido também sem corrupção, já que esta não era denunciada. Portanto, o que fica explicitado é que o exercício da liberdade como um componente fundamental da democracia é bastante complexo no dia-a-dia. 
Quanto à cidadania nesta análise, está ligada ao projeto de políticas públicas pela inclusão social que durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso e de Luís Inácio Lula da Silva  vem sendo construído, embora com diferentes ênfases. Cada um a seu modo, busca integrar os socialmente excluídos. FHC, priorizou, porém, a estabilidade econômica, processo iniciado com o Plano Real em 1994. Dentro de um quadro político neo-liberal sacrificou setores da sociedade brasileira em nome da meta maior a ser alcançada. Nesta caminhada, o exercício da cidadania, como componente do avanço democrático, ao que parece, foi bastante sacrificado pelo desemprego e pelas reformas estruturais ditas necessárias. Já o governo Lula, que se iniciou sob o olhar de expectativa e de esperança de brasileiros e latino-americanos e de desconfiança de outros países mais desenvolvidos, representou, naquele momento, mais uma etapa da consolidação do processo democrático nos países da América Latina e, mais do que isto, representou o sonho não realizado em seus países, de muitos dos que hoje estão aqui presentes. Como Partido Político e partido do Presidente, o PT (Parido dos Trabalhadores) afirma seu compromisso com a democracia plena exercida diretamente pelas massas. Nesse sentido, proclama que sua participação em eleições e suas atividades parlamentares se subordinarão ao objetivo de organizar as massas exploradas e sua lutas (Manifesto: 1998, p. 65 –66, apud  Gedoz: 2002, p. 237).  Pela sua origem pessoal e partidária, o Presidente Lula encarna de certa maneira a nova possibilidade [por ser um novo tempo] de um governo de esquerda [que possa chegar ao fim], em nosso Continente. Sem querer fazer exercício de futurologia, que assim seja. Entretanto, concordamos com Souza, quando diz que se as medidas de reforma constitucional tiverem como objetivo exclusivo a governabilidade do sistema, não haverá engenharia institucional que garanta a estabilidade do regime, se não se procurar pôr fim à longa espera da sociedade, que anseia pela alteração do quadro de profundas desigualdades sociais e econômicas que a aflige (Souza: 1988, p. 615).

REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS

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FREITAS, Décio. Rumo à pós-democracia?, in Zero Hora. Porto Alegre: s/d., 2003.
GEDOZ, Sirlei.  Idéias de democracia no Brasil: partidos políticos e Congresso Nacional, 1973-1987.Tese de doutoramento. Porto Alegre: PUC – RS, 2002.
MANIFESTO, in Resoluções e Encontros do Partido dos Trabalhadores: 1979 1998.  Diretório Nacional do PT. Fundação Perseu Abramo, 1998.
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____________________. A política como espetáculo, in DAGNINO, Evelina (Org.). Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Regresso: máscaras institucionais do liberalismo oligárquico. Rio de Janeiro: Opera Nostra Ed. 1994.
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SOUZA, Maria do Carmo Campelo de. A nova República brasileira: sob a espada de Dâmocles, in STEPAN, Alfred (Org.).Democratizando o Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.