BIOOPOLÍTICA,
BIOPODER E O DESLOCAMENTO DAS MULTIDÕES
Entrevista
especial com Leonora Corsini
Biopolítica
e Biopoder e a passagem da sociedade
disciplinar
para a sociedade do controle foram os temas principais discutidos na
entrevista, realizada pela IHU
On-Line,
com doutora Leonora
Corsini.
“(...) migrante
não é mais uma figura vitimizada, manipulada, totalmente
subordinada aos interesses (e desinteresses) dos governos, dos
dirigentes, das economias; ele é como uma pedra no sapato dos
poderes constituídos, ao recusar a cidadania pela via da integração
e da subordinação”, diz Leonora.
Ela acredita que o migrante, ao desconstruir "a cidadania
baseada em identidades prévias, luta para construir um outro espaço
de ‘cidadinização’, de produção de cidadania, de produção
de direitos”. A entrevista foi realizada por e-mail.
Leonora
Corsini
é psicóloga graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ)
com especialização em Psicologia Clínica pela mesma universidade.
Realizou mestrado na área de psicologia e doutorado em Serviço
Social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É, atualmente,
pesquisadora do Laboratório Território e Comunicação.
Eis
a entrevista.
IHU
On-Line - No seu entendimento, de que forma pode acontecer o processo
de a sociedade disciplinar passar para a sociedade de controle?
Leonora
Corsini -
Segundo Foucault
(1),
o dispositivo disciplinar - em que a lei se associa aos mecanismos de
vigilância e punição/correção - vai atender a um poder que
precisa ser exercido positivamente sobre a vida. Positivamente
porque, ao invés de exigir a morte dos súditos, como fazia o
soberano, tratava-se de permitir a vida, permitir a majoração e a
multiplicação da vida e, em nome deste objetivo, deixar morrer. A
disciplina era exercida sobre os corpos dos indivíduos: operários,
detentos, presos, estudantes, num espaço “vazio” que precisava
ser construído e hierarquizado. A sociedade disciplinar realizou-se
historicamente na sociedade industrial que chegou ao auge com o
fordismo/taylorismo, com a organização científica do trabalho. A
vida humana era, naquele momento, transformada em produção, e a
sociedade disciplinar poderia ser então considerada uma “máquina
de produzir” os trabalhadores das fábricas, por exemplo. Com o
declínio da era fordista de produção, onde esta produção se dava
a partir da fábrica e da relação salarial (emprego), entramos no
tempo da sociedade de controle, em que o poder, que antes estava no
centro, no “interior” da fábrica, do hospital, da caserna, da
escola, sai deste centro e se espalha, agregando o tempo todo novos
elementos de controle.
A
produção também se difunde nos territórios e em suas redes de
circulação que, justamente por isso, tornam-se produtivas. Ou seja,
circulação e produção estão intrinsecamente inter-relacionadas.
Gilles
Deleuze
(2), em “Pós-scriptum para uma sociedade de controle”, um texto
que considero importantíssimo, avalia que os mecanismos de
disciplinamento e sujeição deixam de incidir sobre o “interior”
dos espaços tradicionais de confinamento (a prisão, o hospício, a
fábrica, a escola, a família etc.) e vão operar em outros espaços,
agora através de modulação, que ele compara a uma peneira cujas
malhas mudariam de um ponto a outro. Deleuze oferece um exemplo que
explica bem este mecanismo de controle: enquanto na sociedade
disciplinar a fábrica era um instrumento disciplinador ao constituir
um só corpo de trabalhadores (através do salário) e ao administrar
a resistência sindical, na sociedade de controle a fábrica será
substituída pela empresa que, por sua vez, tenta impor uma modulação
para cada salário, introduz o tempo todo uma rivalidade e uma
competição inexpiável, motivação que contrapõe os indivíduos
entre si e atravessa cada um, dividindo-os em si mesmos. Assim, as
modulações do controle passam por divisão e fragmentação. Fico
pensando no que está acontecendo hoje com a produção
cultural,
especificamente no mundo da música. A relação hoje entre os que
criam a música, os autores, compositores, intérpretes, performers,
é totalmente diferente, não passando mais pelo controle
centralizado e monopolista das grandes gravadoras, das majors.
Hoje, no mundo da música, tudo mudou: a criação se dá o tempo
todo, quando o compositor compõe, quando o cantor canta, quando
alguém vai ao show assistir a um artista, depois filma, copia, põe
na internet, para outras pessoas baixarem, copiarem, reproduzirem,
difundirem...
A
produção está totalmente “fora” dos domínios das gravadoras.
O que está acontecendo com o Tecnobrega (3), no Pará, ilustra
perfeitamente isto. Artistas como a banda Calypso
(4) podem se dar ao luxo de dispensar literalmente as majors, que
agora, vendo a pujança deste mercado, correm atrás. O tecnobrega
constitui uma economia, uma cadeia produtiva impressionante, que vai
do “festeiro” (que patrocina os shows fornecendo a sofisticada e
potentíssima aparelhagem), ao “pirateiro” que produz e distribui
os Cds, passando pelos camelôs que vendem os Cds nas ruas e nos
shows, e nos shows ao vivo, que atraem multidões de jovens. E,
diante disso, tenta-se o tempo criminalizar esta produção, taxando
de ilegal. “Pirataria é crime!”, repetem sem parar.
IHU
On-Line - Como você conceitua biopoder em tempos de inúmeras
migrações, interculturalidade, democracia e neoliberalismo?
Leonora
Corsini –
Antonio
Negri
(5) e Michael
Hardt
(6) escreveram em seu livro Império:
“um espectro assombra o mundo [globalizado], o espectro das
migrações”. Acho esta frase muito boa, pois ela permite pensar em
muitas coisas: por exemplo, como, no mundo contemporâneo, cada vez
mais os poderes constituídos têm que correr atrás da potência, da
incrível força do êxodo, da multidão em movimento. Acho que
podemos ler nesta frase que os migrantes, em seus fluxos de
circulação, que fazem também circular culturas, formas de vida,
subjetividades, novas identidades, riquezas, bens materiais e
imateriais, redesenham o território global, desconstroem fronteiras
e soberanias e desestruturam as dimensões espaciais do ciclo de
produção e reprodução do capital. Isto não se dá sem
ambigüidades. Podemos pensar que as migrações são o fantasma da
globalização justamente porque põem a nu as ambigüidades da
própria globalização: o mundo pós-fordista, pós-nacional,
pós-soberanista desenhado pela globalização, é um mundo
atravessado por crises e, ao mesmo tempo, é marcado pelas
possibilidades de transformação que acompanham essas crises.
A
mobilidade e a circulação de pessoas nesses fluxos do mundo
globalizado
expressam uma nova dinâmica produtiva e relacional, que tem lugar
nos processos de apropriação de novos territórios. Esses processos
são atravessados por conflitos entre interesses econômicos,
religiosos e políticos, por embates entre os poderes constituídos e
a potência criadora e transformadora dos migrantes. Assim, o
migrante pode ser considerado a figura emblemática de uma ontologia
da produção que escapa aos ordenamentos políticos e econômicos do
mundo globalizado, inclusive os ordenamentos neoliberais, que, de
maneira paradoxal, precisam desta força, desta resistência, mas não
param de tentar capturá-la e controlá-la. Então, este migrante não
é mais uma figura vitimizada, manipulada, totalmente subordinada aos
interesses (e desinteresses) dos governos, dos dirigentes, das
economias; ele é como uma pedra no sapato dos poderes constituídos,
ao recusar a cidadania pela via da integração e da subordinação
(vide o que fazem os jovens moradores das periferias de Paris). E, ao
fazer isto, ele desconstroem a cidadania baseada em identidades
prévias, luta para construir um outro espaço de “cidadinização”,
de produção de cidadania, de produção de direitos. E assim que eu
penso, por exemplo, a idéia de uma democracia radical, de uma
democracia construída “desde baixo”, outra idéia muito presente
nos trabalhos de Negri
e Hardt.
IHU
On-Line - E como se dá essa biopolítica nas esferas do trabalho e
da produção no mundo contemporâneo e em constante transformação?
Leonora
Corsini –
O termo biopolítica
apareceu
pela primeira vez na obra de Foucault em uma conferência proferida
em 1974 no Rio de Janeiro sob o título “O nascimento da Medicina
Social”, numa referência ao conjunto de técnicas e saberes
específicos para tratar a população, prevenir as epidemias, fazer
baixar as taxas de doenças endêmicas, impor normas de alimentação,
higiene, organização das cidades, enfim, para garantir que a
população fosse gerida de forma a afirmar e aumentar o poder do
Estado. Naquele momento, a questão de fundo era a constituição da
“governamentabilidade” política, ou seja, uma arte de governar
que colocasse em relevo a “razão de Estado”. A filósofa Judith
Revel
(7), que tem se dedicado aos estudos sobre Foucault e os movimentos
pós-68, observa que, no início dos anos 1970, Foucault falava
indistintamente de biopoder
e biopolítica.
Mas acabou tendo que distinguir e ampliar os dois conceitos: de
maneira simplificada.
Biopoder
seria efetivamente o poder sobre a vida, enquanto biopolítica
poderia ser vista como a resposta resistente da vida diante deste
poder. Na verdade, esta segunda acepção já está indicada nas
páginas finais do primeiro volume da História
da sexualidade de
Foucault (A
vontade de saber),
no qual lemos que, contra o poder aplicado sobre a vida, as forças
que resistem vão se apoiar exatamente naquilo sobre que o poder
investe: no corpo, na vida do homem enquanto ser vivo. Ou seja, a
biopolítica
teria também uma dimensão de réplica política da vida a todos os
procedimentos de controle e de captura do poder. Negri e Hardt dizem
que Foucault indica, neste momento de sua obra, as linhas em formação
da sociedade de controle em um horizonte de imanência e de poder
ativo - uma biopolítica
social.
Acho que, mais uma vez, o campo das migrações oferece excelentes exemplos dessas modulações, desses processos de fuga e controle. Penso num caso que li recentemente de uma mulher mexicana deportada pela segunda vez dos Estados Unidos, junto com centenas de milhares de migrantes mexicanos que não conseguem a legalização e são perseguidos sistematicamente pelo governo Bush. Acusada de terrorista, ela foi ilegalmente separada de seu filho de oito anos que nasceu em Washington (ilegalmente porque os princípios universais de unificação familiar previstos na legislação migratória norte-americana foram totalmente descumpridos). O caso gerou uma crise diplomática entre México e Estados Unidos e converteu esta mulher em símbolo da luta pelos direitos de mais de 12 milhões de migrantes “indocumentados”, hoje vivendo nos Estados Unidos. Depois da segunda deportação, Elvira Arellano (8) começou uma cruzada pela legalização dos migrantes considerados ilegais e indesejáveis pela administração Bush, que incluiu um pedido ao presidente mexicano Felipe Calderón (9) de que lhe conferisse uma credencial diplomática como “Embaixadora da paz, justiça e esperança” para poder regressar aos Estados Unidos e continuar a luta “na linha de frente”. Além disso, ela apoiou a criação da Casa do Migrante, que funcionará como refúgio a todos os migrantes que passem pela localidade de Ecatepec de Morelos, na região de fronteira, e convocou uma greve nacional de 24 horas dos migrantes vivendo nos EUA, que, apesar de não ter conseguido mobilizar tantas pessoas como em 2004 e 2005, tem um conteúdo simbólico bastante importante. Esta mulher, migrante, não desiste de sua luta, que é muito maior que seu problema individual, pessoal: a deportação atravessa sua vida, a separa de seu filho, e atravessa as vidas de toda esta multidão que batalha por seus direitos, pelo direito de ir-e-vir, de trabalhar, de produzir a própria vida.
Acho que, mais uma vez, o campo das migrações oferece excelentes exemplos dessas modulações, desses processos de fuga e controle. Penso num caso que li recentemente de uma mulher mexicana deportada pela segunda vez dos Estados Unidos, junto com centenas de milhares de migrantes mexicanos que não conseguem a legalização e são perseguidos sistematicamente pelo governo Bush. Acusada de terrorista, ela foi ilegalmente separada de seu filho de oito anos que nasceu em Washington (ilegalmente porque os princípios universais de unificação familiar previstos na legislação migratória norte-americana foram totalmente descumpridos). O caso gerou uma crise diplomática entre México e Estados Unidos e converteu esta mulher em símbolo da luta pelos direitos de mais de 12 milhões de migrantes “indocumentados”, hoje vivendo nos Estados Unidos. Depois da segunda deportação, Elvira Arellano (8) começou uma cruzada pela legalização dos migrantes considerados ilegais e indesejáveis pela administração Bush, que incluiu um pedido ao presidente mexicano Felipe Calderón (9) de que lhe conferisse uma credencial diplomática como “Embaixadora da paz, justiça e esperança” para poder regressar aos Estados Unidos e continuar a luta “na linha de frente”. Além disso, ela apoiou a criação da Casa do Migrante, que funcionará como refúgio a todos os migrantes que passem pela localidade de Ecatepec de Morelos, na região de fronteira, e convocou uma greve nacional de 24 horas dos migrantes vivendo nos EUA, que, apesar de não ter conseguido mobilizar tantas pessoas como em 2004 e 2005, tem um conteúdo simbólico bastante importante. Esta mulher, migrante, não desiste de sua luta, que é muito maior que seu problema individual, pessoal: a deportação atravessa sua vida, a separa de seu filho, e atravessa as vidas de toda esta multidão que batalha por seus direitos, pelo direito de ir-e-vir, de trabalhar, de produzir a própria vida.
IHU
On-Line - Quais são as principais novas lutas das multidões em
tempos de globalização?
Leonora
Corsini -
Acho que as lutas
dos migrantes
convergem com as lutas dos que são colocados às margens da
cidadania, que são discriminados por serem negros, mestiços,
diferentes e potencialmente perigosos, que lutam todos os dias por
direitos, por acesso a mecanismos de proteção social, enfim, por
democracia. As migrações mundiais, em interseção com a acelerada
mobilidade e descentralização do trabalho no cenário pós-fordista,
entram como elementos fundamentais numa pauta de discussões e
preocupações em torno da formulação de políticas públicas de
saúde, educação, habitação, previdência, assistência, que
possam dar conta da questão do trabalho e proteção social em toda
sua complexidade. Isto porque hoje a geração de renda e a
constituição de formas de cooperação e produção flexível
convivem com mecanismos de precarização, marginalização e
empobrecimento. Muitos migrantes só conseguem se instalar e produzir
sua vida trabalhando em condições de informalidade e de extrema
precariedade (temos o exemplo dos milhares de bolivianos que migram
para a Espanha,
Argentina, para o Brasil, sobretudo São Paulo, para tentarem
conseguir formas mais dignas de vida para si e para seus familiares).
Esses
migrantes precarizados (mas que não desistem, quero reforçar),
engrossam as fileiras dos que demandam, para além da assistência
social e dos cuidados de saúde e educação a construção de novos
instrumentos de apoio aos movimentos, organizações, cooperativas e
instituições que possam fomentar a inclusão como forma de promover
e desenvolvimento, a partir da premissa de que a inclusão e a
universalização dos direitos e da cidadania são as condições
necessárias para um crescimento econômico socialmente sustentável
(e não o contrário, como às vezes se diz). Ou seja, a constituição
de uma política pública construída “desde baixo”. E a luta
dos migrantes
é um exemplo, mas dentro desta mesma dinâmica temos outros
movimentos sociais como os dos camelôs, dos trabalhadores informais
e também dos formais cada vez mais precarizados, dos pesquisadores,
dos artistas e criadores, das ocupações de prédios nas grandes
cidades, do software
livre,
do copyleft,
e por aí vai.
IHU
On-Line - A biopolítica é um padrão contemporâneo de dominação,
propriedade e controle?
Leonora
Corsini -
Eu diria que a biopolítica
hoje constitui tanto uma modulação de controle e dominação, mas é
também o que resiste ao poder, o que resiste à fixação das
relações estratégicas dos poderes em disputa em relações de
dominação. Judith
Revel
fala de uma biopolítica da periferia (poderia acrescentar, uma
biopolítica
de fronteira), Peter
Pál Pelbart
(10) fala de biopotência: a vida por um triz, em constante variação,
passando o tempo todo das formas “maiores”, de dominação, de
subordinação, às formas “menores”, de criação de linhas de
fuga, de subversão, de invenção, de resistência. É sempre deste
permanente embate entre forças que se trata: poderes versus
potência. Vale lembrar que os poderes que se abatem o tempo todo
sobre a vida, sobre os corpos, sobre a produção, o trabalho, não
são poderes onipotentes que visam a simplesmente aniquilar estas
forças. Ao contrário, precisam delas, porque o poder não cria
nada, ele precisa capturar as forças de criação e esbarra o tempo
todo em forças contrárias, que lhes são desde sempre antagônicas.
IHU
On-Line - E, para a senhora, qual é o lugar da cultura dentro desse
pensamento de biopolítica e biopoder?
Leonora
Corsini -
Cultura, assim como identidade, é um conceito complicado, sempre que
pressupõe “uma” cultura, algo homogêneo que sintetiza (e reduz)
uma multiplicidade de expressões, de manifestações. Eu prefiro
pensar em cultura como um terreno, como um espaço onde se constituem
as lutas por democracia, por cidadania; ao mesmo tempo, essas lutas
produzem afetos, subjetividades, criam, inventam, inovam, produzem
novas expressões culturais. Eu acho que esta é uma nova maneira de
entender a produção cultural hoje, no espaço do embate incessante,
de uma constante reinvenção da vida que tem lugar nas cidades, que
está intimamente interligada com a vida nas cidades no mundo
globalizado. Hoje, quando nós temos o hip-hop e o funk no Rio, o
tecnobrega em Belém, os desfiles da Daspú
(11) em São Paulo, o mangue-beat (12) no Recife, para dar alguns
exemplos, não é possível mais para se pensar em uma “cultura”
nacional brasileira de raiz, homogênea, unificada. Isso vale também
para identidade, que costuma vir atrelada à idéia de cultura e de
povo. Isso hoje está sendo desconstruído e, mais uma vez, as
migrações e os movimentos sociais têm tudo a ver com esta
desconstrução.
IHU
On-Line - E como a senhora relaciona mesticidade, identidade e
biopolítica?
Leonora
Corsini -
Falando seriamente, a mestiçagem, a hibridação, costuma ser vista
de duas maneiras, como subordinação, sujeitamento (por exemplo,
quando o movimento negro vê na mestiçagem a subordinação dos
negros às políticas de “embranquecimento” defendidas por alguns
governantes), mas também pode ser pensada como resistência, como
linha de fuga. Quantos escravos “fugiram” das fazendas coloniais
e literalmente “quebraram” por dentro as oligarquias do café no
Brasil, através dos quilombos, e também com a mestiçagem! Mas,
para responder esta questão, eu vou pegar carona na fala de uma
personagem de um filme recente do cineasta inglês Ken
Loach
(13) [Apenas
um beijo]
sobre como as pessoas “mestiças” se definem a si mesmas. A
personagem é Tahara, uma adolescente filha de paquistaneses que
vivem em Glasgow, Escócia, e que é irmã do protagonista da
história, a qual, ao repudiar a moção de apoio de sua escola à
invasão do Iraque, diz que o discurso do combate ao terrorismo
escamoteia uma outra forma de violência, tão ou mais brutal. Em sua
fala, ela denuncia a estupidez de projetar, para os seguidores do
islamismo, uma imagem-síntese de um bilhão de muçulmanos
espalhados em mais de cinqüenta países, falando centenas de línguas
diferentes e de origens étnicas as mais variadas. Ela cita o exemplo
de sua própria família: seu pai é 100% paquistanês e mesmo depois
de 40 anos vivendo na Escócia, ele se vê assim. Sua irmã se define
como negra, talvez por um posicionamento político. E ela recusa as
definições ocidentais simplificadoras do terrorismo, que acabam
passando por cima das milhares de vítimas do terrorismo de Estado. E
diz que, acima de tudo, rejeita a simplificação ocidental a
respeito dos muçulmanos: “sou nascida em Glasgow, paquistanesa,
adolescente, mulher, uma mulher descendente de muçulmanos que torce
pelos Glasgow Rangers em uma escola católica. Eu sou uma mistura
incrível, e sinto orgulho disto”.
Notas:
(1) Michel Foucault foi um filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984. Foucault trata principalmente do tema do poder, rompendo com as concepções clássicas deste termo. Para ele, o poder não pode ser localizado em uma instituição ou no Estado, o que tornaria impossível a "tomada de poder" proposta pelos marxistas. O poder não é considerado como algo que o indivíduo cede a um soberano (concepção contratual jurídico-política), mas sim como uma relação de forças. Para analisar o poder, Foucault estuda o poder disciplinar e o biopoder, e os dispositivos da loucura e da sexualidade. Para isto, em lugar de uma análise histórica, realiza uma genealogia, um estudo histórico que não busca uma origem única e causal, mas que se baseia no estudo das multiplicidades e das lutas. Também abriu novos campos no estudo da história e da epistemologia. Sobre ele, a Revista IHU On-Line publicou a edição 119 e 203.
(1) Michel Foucault foi um filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984. Foucault trata principalmente do tema do poder, rompendo com as concepções clássicas deste termo. Para ele, o poder não pode ser localizado em uma instituição ou no Estado, o que tornaria impossível a "tomada de poder" proposta pelos marxistas. O poder não é considerado como algo que o indivíduo cede a um soberano (concepção contratual jurídico-política), mas sim como uma relação de forças. Para analisar o poder, Foucault estuda o poder disciplinar e o biopoder, e os dispositivos da loucura e da sexualidade. Para isto, em lugar de uma análise histórica, realiza uma genealogia, um estudo histórico que não busca uma origem única e causal, mas que se baseia no estudo das multiplicidades e das lutas. Também abriu novos campos no estudo da história e da epistemologia. Sobre ele, a Revista IHU On-Line publicou a edição 119 e 203.
(2)
O filósofo francês Gilles
Deleuze
considerava a filosofia como uma arte de formar, inventar, fabricar
conceitos. A sua filosofia vai de encontro à psicanálise,
nomeadamente a freudiana, que aos seus olhos reduz o desejo ao
Complexo de Édipo. Ela é considerada como uma filosofia da
vitalidade e o desejo.
(3)
O tecnobrega é um estilo popular mais expressado através da música.
Caracteriza-se pelas festas de aparelhagem, empregando bandas,
dançarinos, dj's, produtores caseiros e camelôs; estes distribuem
os CD's de forma alternativa, possibilitando a difusão mais rápida
das produções, geralmente em acordo com o artista. O ritmo consiste
na mistura de carimbó, siriá, lundu e outros gêneros populares com
o calipso caribenho, as guitarradas e elementos eletrônicos,
essencialmente programas e batidas de computador.
(4)
A Banda Calypso foi formada em Belém no ano de 1999
pelo casal Joelma e Chimbinha. Inicialmente
restritos ao circuito musical do Norte, Nordeste do Brasil e música
latina do Caribe, a banda hoje desfruta de grande sucesso em todo o
País e começa a firmar sua carreira no exterior, com turnês para
os Estados Unidos, países da Europa entre outros, embora alguns
sejam da opinião que a referida banda seja apenas mais um dos
modismos dentro da música popular comercial.
(5)
Antonio Negri é um filósofo político marxista
italiano. Conhecido na Itália por sua atividade política, Negri
adquiriu notoriedade internacional nos primeiros anos do século XXI,
graças ao livro Império, escrito em co-autoria com seu ex-aluno
Michael Hardt. O livro tornou-se um dos manifestos do movimento
anti-globalização. Iniciou sua militância política nos anos 1950
como ativista da Juventude Italiana de Ação Católica. Foi membro
da Internacional Socialista de 1956 a 1963. No início dos anos 1960,
Negri compôs o comitê editorial dos Cadernos Vermelhos, que
representava o renascimento intelectual do Marxismo na Itália.
Acusado, em 1979, de ter sido o "cérebro" da operação de
seqüestro e assassinato de Aldo Moro, líder da Democracia Cristã
italiana, em 1978, Negri foi preso. Conseguiu, porém, livrar-se de
todas as acusações. Todavia, foi condenado a uma longa pena de
detenção em um controverso processo de "associação
subversiva contra o Estado". Negri refugiou-se França e ensinou
na Universidade de Paris e no Colégio Internacional de Filosofia,
onde também eram docentes Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles
Deleuze. Em 1997, retornou voluntariamente à Italia para cumprir o
restante de sua pena. Atualmente, Antonio Negri vive em Veneza.
(6)
Michael
Hardt
é professor de Literatura da Duke University. Autor de Gilles
Deleuze - Um aprendizado em Filosofia e
co-autor, com Antonio Negri, de Labor
of Dionysus: a critique of the State-form.
Editou,
com Paolo Virno, Radical Thought in Italy e, com Kathi Weeks, The
Jameson Reader. Atualmente
trabalha em uma pesquisa sobre a obra de Pier Paolo Pasolini.
(7)
Marie Judith Revel nasceu em Paris (1966). Filósofa,
é professora da Universidade de Roma – La Sapienza e colaboradora
no Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade de
Consenza e do Centro Michel Foucault (Paris). Suas pesquisas abordam
o pensamento francês contemporâneo, particularmente a obra de
Michel Foucault. Foi diretora da edição italiana dos Ditos
e escritos de Foucault (Feltrinelli, 1996-1998).
(8)
Elvira Arellano é mexicana de San Miguel
Curahuango, mas ficou conhecida por viver ilegalmente nos Estados
Unidos. Foi detida pela primeira vez em 1997, logo que cruzou a
fronteira entre o México e os EUA. Acabou regressando, mas poucos
dias depois voltou a cruzar a fronteira. Anos mais tarde, foi levada
à polícia federal anti-terrorista quando trabalhava limpando aviões
comerciais no Aeroporto de Chicago. Ela declarou ter medo de ser
novamente deportada, mas que ainda assim não podia ficar de braços
cruzados em relação à sua situação. Desse modo, convocou uma
luta em prol de uma reforma migratório nos EUA.
(9)
Felipe de Jesús Calderón Hinojosa é o atual
presidente do México. Político mexicano conservador, ligado ao
Partido da Ação Nacional (PAN) de Vicente Fox, foi lançado como
candidato à presidência em dezembro de 2005 para concorrer nas
eleições de julho de 2006. Durante a campanha, seu principal
adversário foi o centro-esquerdista Andrés Manuel López Obrador do
Partido da Revolução Democrática (PRD). A apuração concedeu
vitória apertada de Calderón, mas López Obrador não aceitou o
resultado e prometeu contestá-lo judicialmente. Mesmo assim,
Calderón foi empossado na presidência em dezembro de 2006.
(10)
Peter
Pál Pelbart
é doutor em filosofia e professor na PUC-SP. É tradutor e estudioso
da obra de Gilles Deleuze (traduziu para o português "Conversações",
"Crítica
e clínica"
e parte de "Mil
Platôs").
Escreveu sobre a concepção de tempo em Deleuze ("O
Tempo Não-reconciliado",
Perspectiva, 1998), sobre a relação entre filosofia e loucura ("Da
clausura do fora ao fora da clausura: loucura e desrazão",
Brasiliense, 1989, e "A
Nau do Tempo-rei",
Imago, 1993) e publicou, mais recentemente, "A
vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea",
Iluminuras, 2000.
(11)
Daspú
é uma grife carioca formada por um grupo de prostitutas. Foram
incentivadas financeiramente pela Ong
Davida.
Seu nome é um contraponto à grife paulistana Daslu, uma loja
especializada em artigos de luxo. A inovação da grife é a criação
de um novo tipo de roupa além das básicas e de festa. São roupas
extremamente sensuais e decotadas ou curtas, porém não vulgares.
Isso pode ser uma forma alternativa de lutar contra o preconceito e
por maiores direitos às profissionais do sexo.
(12)
Manguebeat
é um movimento musical que surgiu no Brasil na década de 1990 em
Recife e mistura ritmos regionais com rock, hip-hop e música
eletrônica. Esse estilo tem como ícone o músico Chico
Science,
ex-vocalista, já falecido, da banda Chico
Science e Nação Zumbi,
idealizador do rótulo mangue e principal divulgador das idéias,
ritmos e contestações do Manguebeat. Outro grande responsável pelo
crescimento desse movimento foi Fred
04,
vocalista da banda Mundo
Livre S/A
e autor do primeiro manifesto do Mangue de 1992, intitulado
Caranguejos com cérebro.
(13)
Kenneth "Ken" Loach um cineasta britânico.
Filho de operários, dedicou sua obra cinematográfica à descrição
das condições de vida da classe operária.
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