Quarta,
18 de setembro de 2013
Entrevista especial com
Elder Andrade de Paula
“O
cenário atual da Amazônia hoje é muito mais grave do que foi no
período do estado desenvolvimentista comandado pela ditadura
militar. À época, as formas destrutivas eram visíveis; agora, boa
parte das formas destrutivas é invisível", constata o
agrônomo.
A
expansão da pecuária e a exploração madeireira na Amazônia
ultrapassaram os efeitos tradicionais de expulsão das populações
camponesas e extermínio dos povos indígenas. Hoje, está em curso
um “tipo de destruição” que não é muito “visível”, diz
Elder
Andrade de Paula
à IHU
On-Line,
em entrevista concedida por telefone. “Estou me referindo ao modo
como a pecuária tem deixado de ser uma atividade somente ligada a
grandes, médias e pequenas propriedades, e tem se disseminado na
pequena propriedade de produção camponesa e também entrado nas
Unidades de Conservação”, menciona.
Andrade
de Paula
se refere a medidas ambientais implementadas nos últimos dez anos,
as quais são revestidas com o discurso da sustentabilidade, mas
fizeram triplicar a exploração madeireira e a expansão pecuária
no Acre.
“Trata-se de uma política de dar com uma mão e tirar com a outra,
porque ao mesmo tempo em que se anunciou uma expansão do controle da
propriedade da terra sobre controle público, para ser concedida como
forma de uso para seus ocupantes, apareceu um conjunto de políticas
que fizeram com que esse público fosse apropriado para fins
privados. O exemplo mais emblemático disso foi a mal denominada lei
de Florestas Públicas, Lei
11.284,
aprovada em 2006”, esclarece. Segundo ele, “essa lei colocou, sob
o domínio efetivo das grandes corporações vinculadas à exploração
e comércio mundial de madeira, a exploração de um potencial de 50
milhões de hectares na Amazônia”.
Autor do
livro (Des)envolvimento
insustentável na Amazônia Ocidental,
produzido a partir da sua tese de doutorado, Elder
enfatiza que ao longo da última década também foram criadas
“políticas estratégicas de exploração de madeira acobertadas
por nomes bastante simpáticos, como Planos
de Manejo Florestal Sustentável de Base Comunitária”.
Segundo
ele, “o Manejo
Comunitário
é muito enganoso, porque não há nada de comunitário. As
comunidades só veem as madeiras mais valiosas saírem de suas áreas,
sem terem qualquer participação nisso, porque o processo de
exploração da madeira é mecanizado. As empresas compram a madeira
e atuam com outras que são subsidiárias para fazer o corte e o
transporte”.
Elder
Andrade de Paula
é licenciado em Ciências Agrícolas pela UFRJ,
especialista em Ciências Sociais com enfoque na Amazônia pela
Universidade
Federal do Acre –
UFAC,
mestre e doutor em Desenvolvimento Agrícola e Sociedade. Atualmente
é docente dos programas de Mestrado em Desenvolvimento Regional e de
Ecologia e Manejo de Recursos Naturais, da Universidade
Federal do Acre –
UFAC.
Confira
a entrevista.
IHU
On-Line - Qual é o atual quadro da expansão da pecuária e da
exploração madeireira no Acre? Por quais razões essas atividades
triplicaram na última década?
Elder
Andrade de Paula –
Já havia sido apontada uma tendência, numa pesquisa que realizei em
2002, de que, ao contrário do que se afirma no Brasil e no exterior,
na Amazônia havia possibilidades animadoras para redirecionar o
processo de desenvolvimento no sentido de torná-lo menos predatório
e mais justo social e ambientalmente. O que percebemos na última
década foi o contrário, ou seja, a reiteração de um processo
destrutivo de expansão do capital na Amazônia, encoberto pela
propaganda que se converteu em ideologia do desenvolvimento
sustentável.
Quando
analisamos o estado do Acre,
considerado o mais avançado na adoção dessas políticas e
estratégias orientadas segundo o chamado desenvolvimento
sustentável, tal como preconizado pelo Banco
Mundial,
vemos a expansão das atividades mais destrutivas da Amazônia: a
pecuária extensiva de corte e a exploração florestal madeireira.
Na última década, houve uma expansão monumental dessas duas
atividades. A pecuária, que em 1998 tinha um rebanho de
aproximadamente 800 mil cabeças de gado, hoje está perto de três
milhões de cabeças. A exploração madeireira, que em 1998
estava em torno de 300 mil metros cúbicos, hoje se aproxima de um
milhão de metros cúbicos. Eu me refiro à data de 1998, porque foi
em 1999 que teve início o governo identificado com o propósito de
implantar o dito desenvolvimento sustentável.
IHU
On-Line - Quais são os efeitos diretos da expansão da pecuária e
da exploração madeireira na região?
Elder
Andrade de Paula –
Sempre se associou à expansão da pecuária a desapropriação de
territórios, com a expulsão de populações camponesas para as
cidades e o extermínio de povos indígenas. Esses são os efeitos
tradicionais da expansão da pecuária. Porém, hoje, essa expansão
tem gerado outro tipo de destruição, que não é muito visível.
Estou me referindo ao modo como a pecuária tem deixado de ser uma
atividade somente ligada a grandes, médias e pequenas propriedades e
tem se disseminado na pequena propriedade de produção camponesa e
também entrado nas Unidades
de Conservação.
Houve denúncias, há dois ou três anos, da expansão da pecuária
nas reservas extrativistas Chico Mendes, porque as populações que
moram ali acabam sendo forçadas ou incentivadas a ampliarem suas
áreas de campo para dedicarem-se a essas atividades, uma vez que a
atividade extrativista vai sendo estrangulada porque não tem
incentivo para a produção de castanha ou para outras atividades
ligadas à existência dessas comunidades e povos. O mais incrível é
que, quando as comunidades fazem isso, são criminalizadas. Havia uma
forte propensão do Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade — ICMBio
de expulsar das reservas extrativistas aquelas famílias que estavam
fazendo o uso de áreas para a expansão da pecuária.
A
pecuária avança, degrada a floresta, e posteriormente há algumas
iniciativas governamentais ditas para recuperar a área degradada.
Ocorre que essa recuperação se dá com a plantação de
monocultivos. No plano de governo do Acre
está anunciada claramente a intenção de reflorestar 40 mil
hectares de área degradada com a cultura do dendê e com outras
formas de cultivo para a produção de energia. A cana-de-açúcar já
expandiu de forma razoável no Eixo
da BR-317.
Então, a pecuária foi incentivada com financiamentos para destruir,
e agora a área destruída será recuperada por grandes empresas, as
quais receberão financiamento para isso. Assim, elas ganham de outro
lado. E não se trata de recuperar a área, mas de intensificar a
destruição com o monocultivo.
As
consequências sociais são dramáticas em um estado que não tem
indústrias, a população é expulsa do campo, vai para a cidade,
onde não tem ocupação e emprego, e acaba trabalhando em
subempregos e ficando refém dos programas assistencialistas e
clientelistas que dominam o poder político regional e oligárquico.
Os dados do IBGE
são assustadores, porque demonstram que metade da população do
Acre vive de programas sociais, a renda é muito concentrada, a
propriedade da terra é concentrada: 540 propriedades detêm 78% da
terra de domínio privado.
IHU
On-Line - Quais foram as políticas implantadas na última década e
que geraram esse cenário, a exemplo da criação de Unidades de
Conservação, de Reservas Extrativistas?
Elder
Andrade de Paula –
Trata-se de uma política de dar com uma mão e tirar com a outra,
porque ao mesmo tempo em que se anunciou uma expansão do controle da
propriedade da terra sobre controle público, para ser concedida como
forma de uso para seus ocupantes, apareceu um conjunto de políticas
que fizeram com que esse público fosse apropriado para fins
privados. O exemplo mais emblemático disso foi a mal denominada lei
de Florestas
Públicas, Lei 11.284,
aprovada em 2006.
IHU
On-Line – Quando Marina Silva era ministra do Meio Ambiente?
Elder
Andrade de Paula –
Sim, ela era ministra do Meio Ambiente. Essa lei colocou, sob o
domínio efetivo das grandes corporações vinculadas à exploração
e comércio mundial de madeira, a exploração de um potencial de 50
milhões de hectares na Amazônia. Aliado a isso foram criadas outras
políticas estratégicas de exploração de madeira acobertadas por
nomes bastante simpáticos, como Planos
de Manejo Florestal Sustentável de Base Comunitária.
No Acre existem licenciamentos para 23 mil hectares, e a proposta de
governo no período de 2010 a 2014 é ampliar para 280 mil hectares.
O Manejo
Comunitário
é muito enganoso, porque não há nada de comunitário. As
comunidades só veem as madeiras mais valiosas saírem de suas áreas,
sem ter qualquer participação nisso, porque o processo de
exploração da madeira é mecanizado. As empresas compram a madeira
e atuam com outras que são subsidiárias para fazer o corte e o
transporte.
Para você ter uma ideia, as famílias que trabalhavam na floresta Estadual do Antimary, que é a primeira unidade de experimentação no dito Manejo Florestal Sustentável, recebiam em média 800 reais mensais. O metro cúbico de madeira certificada no município de Rio Branco custa 600 reais. Então se você considerar que dessas unidades saem, no mínimo, 30 metros cúbicos de madeira por mês, é possível ter uma ideia de qual é o resultado prático disso. O resultado econômico dessa atividade novamente se concentra fora da região, com a participação do poder oligárquico, que se beneficia. Isso gera um estrangulamento na cidade, porque marcenarias que compravam madeira em torno de 400 reais o metro cúbico, hoje encontram o metro cúbico a 600 reais.
Para você ter uma ideia, as famílias que trabalhavam na floresta Estadual do Antimary, que é a primeira unidade de experimentação no dito Manejo Florestal Sustentável, recebiam em média 800 reais mensais. O metro cúbico de madeira certificada no município de Rio Branco custa 600 reais. Então se você considerar que dessas unidades saem, no mínimo, 30 metros cúbicos de madeira por mês, é possível ter uma ideia de qual é o resultado prático disso. O resultado econômico dessa atividade novamente se concentra fora da região, com a participação do poder oligárquico, que se beneficia. Isso gera um estrangulamento na cidade, porque marcenarias que compravam madeira em torno de 400 reais o metro cúbico, hoje encontram o metro cúbico a 600 reais.
IHU
On-Line - Além da exploração madeireira e da expansão da
pecuária, quais são os indícios de desenvolvimento insustentável
na Amazônia Ocidental?
Elder
Andrade de Paula –
Agravam-se os conflitos por causa da propriedade da terra. O Caderno
de Conflitos da Comissão Pastoral da Terra — CPT
mostra claramente a linha de conflitos nessas áreas em que a madeira
é explorada pelo plano de manejo. Essas atividades se integram ao
processo de retomada do ciclo extrativista na América Latina. Além
da madeira, da expansão da pecuária e do monocultivo, também está
prevista a exploração de gás e petróleo no Parque
Nacional da Serra do Divisor
e a possibilidade de exploração de gás de xisto, que é destrutiva
ambientalmente.
IHU
On-Line - Qual é o destino dessa madeira?
Elder
Andrade de Paula –
Os laminados são destinados ao Centro-Sul, mas, do total da madeira
explorada, 35% se destina ao mercado externo e algo como 40 ou 50% é
destinado ao Sudeste e Centro-Sul. Pouco fica no Acre. Essa atividade
é fortemente subsidiada com isenção fiscal. Então as populações
deixam de se beneficiar porque o Estado financia grandes empresas.
IHU
On-Line - O senhor diz que as linhas de crédito no Acre servem para
articular as economias que chama de marrom e verde. Pode explicar
esse panorama? Quais são essas linhas e o que denomina de economia
marrom e verde?
Elder
Andrade de Paula –
Os incentivos para a produção são oferecidos através de linhas de
crédito do governo federal. A indústria madeireira também é
financiada pelo BNDES.
Em Xapuri,
o BNDES
financiou 60 milhões para a construção de uma indústria.
Construiu o prédio, comprou as máquinas para operar, e depois o
governo entregou a empresa na forma de concessão para a exploração
privada. Além de essa indústria operar em uma instalação com
maquinários adquiridos com recursos públicos via BNDES,
ela também está comprando madeira de unidades que são de domínio
público.
O
governo estadual também financia a infraestrutura no fornecimento de
energia, de construção de infraestrutura de transportes, como é o
caso da estrada que liga Rio
Branco
a Cruzeiro
do Sul,
a qual foi financiada pelo Banco
Interamericano de Desenvolvimento.
As madeireiras e grandes fazendas dedicadas à exploração pecuária
também recebem um alento a mais por conservarem algumas áreas,
através de algo chamado de
Mercado de Crédito de Carbono.
IHU
On-Line - Que aspectos devem ser considerados no debate regional
sobre sustentabilidade? Em que consistiria uma política pública
eficiente para garantir a sustentabilidade regional da Amazônia?
Elder
Andrade de Paula -
Algumas coisas são fundamentais. A primeira é fazer com que os
sujeitos sociais mais interessados em reverter esse processo tenham
maior poder de voz no sentido de propor e implementar outras
políticas. Não estou tentando reinventar nada, estou lembrando o
que aconteceu na década de 1980, quando os movimentos sociais
reativos se interpuseram ao processo de expansão predatória e
propuseram alternativas consideradas por eles mais adequadas ao seu
modo de vida e às suas aspirações, como foi o caso das reservas
ativistas. Nos últimos 20 anos, houve uma tentativa de aniquilação
do poder de pressão dessas comunidades camponesas, dos povos
indígenas e suas representações no sentido de amordaçá-los e
fazer com que não se constituíssem obstáculos nesse conjunto de
políticas.
O ponto essencial é que essas representações, esses movimentos, reconquistem uma autonomia suficiente para que sua voz seja ouvida e não seja mais representada por terceiros, sejam eles partidos políticos, grandes organizações não governamentais, etc.
O ponto essencial é que essas representações, esses movimentos, reconquistem uma autonomia suficiente para que sua voz seja ouvida e não seja mais representada por terceiros, sejam eles partidos políticos, grandes organizações não governamentais, etc.
O
segundo aspecto é retomar parte daquilo que indicaram, já nos anos
1980, como essencial para fazer com que essa região não seja
destruída. Ou seja, criar as condições de vida adequadas aos povos
que vivem em seus territórios, ofertando a eles condições de vida
decentes, com financiamento subsidiando a produção, valorizando uma
gama enorme de produtos existentes nas florestas, os quais podem ser
usados sem destruí-las, como essências e ervas medicinais.
O
problema fundamental é que o modelo de desenvolvimento em curso no
Brasil está pautado no processo extensivo de apropriação
permanente de territórios para o saque dos bens naturais, para
alimentar o moinho satânico do capital. A solução definitiva para
mudar esse cenário, não creio que possa ser dada nos marcos do
capitalismo, pois o capitalismo é incompatível com o bem-estar
social, com a conservação do meio ambiente.
IHU
On-Line - Quais as implicações do uso do termo desenvolvimento
sustentável?
Elder
Andrade de Paula -
O uso desse termo tem sido até hoje extremamente útil para ocultar
aquilo que ele de fato produz: a insustentabilidade. Em um
determinado momento do capitalismo, pensou-se que seria possível
compatibilizar a conservação dos bens naturais com a lucratividade
do capital. Essa crença foi alimentada pelo colapso do bloco
socialista, quando o socialismo deixou de estar no horizonte.
Pensou-se, então, que era no capitalismo que se deveriam resolver os
problemas mais emergentes da civilização. E acreditou-se que o
desenvolvimento sustentável era a saída, ou seja, em nome do
desenvolvimento sustentável se construíram esses processos a que me
referi até agora. Ocorre que o desenvolvimento sustentável acabou
se convertendo em uma grande ideologia que oculta o seu processo
destrutivo.
Na
Rio+20
aconteceu um fato extraordinário: a economia
verde
apareceu como “cavalo de batalhas”, e o debate, que foi jogado
com a expressão economia verde, teve na verdade a intenção de
revigorar o desenvolvimento sustentável. A diferença é que a
economia verde revela suas intenções, enquanto o
desenvolvimento sustentável as oculta. Então, criou-se uma falsa
ideia, inclusive na Cúpula
dos Povos,
de que se teria de lutar contra a economia verde em favor do
desenvolvimento sustentável. Essa é uma grande armadilha, porque o
desenvolvimento sustentável, tal como preconizado pela matriz
dominante no mundo, é veiculado às políticas do Banco
Mundial.
Ou seja, afirma explicitamente que só é sustentável aquilo que
traz resultado econômico. Então são os resultados econômicos que
comandam as políticas de estratégias. O restante é, novamente,
política secundária, de assistência social, de mitigação de meio
ambiente.
Há
ainda uma ofensiva monumental aos bens da natureza com uma
intensificação que se chama hoje financeirização, apresentada
nesses mecanismos de pagamentos de serviços ambientais, que
transferem para o mercado financeiro o controle de vastos territórios
na forma de contratos como o REED.
O
cenário atual da Amazônia hoje é muito mais grave do que foi no
período do estado desenvolvimentista comandado pela ditadura
militar. À época, as formas destrutivas eram visíveis; agora, boa
parte das formas destrutivas é tornada invisível. O que aparece nos
meios de informação do país são notícias a respeito da expansão
das queimadas, ou então os impactos de grandes projetos como o
hidrelétrica
de Belo Monte,
a abertura de estradas, a exploração de gás
e petróleo.
Mas esse conjunto de atividades das quais me referi não aparece nos
noticiários.
IHU
On-Line - Deseja acrescentar algo?
Elder
Andrade de Paula –
Existe a emergência de movimentos que estão lutando contra isso em
toda a América Latina. O exemplo emblemático foi o caso de
Cochabamba,
em 2010, na Bolívia, com ampla participação das comunidades
indígenas e camponesas. Foi um dos eventos mais importantes do
século
XXI,
porque se contrapôs ao consenso estabelecido no âmbito da ONU
com o dito desenvolvimento sustentável. Ele serve como horizonte
maior para nós pensarmos nas lutas de resistência, que não podem
se dar isoladamente.
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